04 novembro 2011
Comissão promove debate sobre gestão de águas
Em audiência pública na próxima quarta-feira (9), às 14h, a Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas vai ouvir o diretor-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, que irá falar das ações atuais e futuras sobre a gestão de águas no Brasil.
Em termos globais, de acordo com a ANA, o Brasil apresenta uma situação confortável quanto aos recursos hídricos. A disponibilidade hídrica per capita, determinada a partir de valores totalizados para o país, indica uma situação satisfatória, quando comparada aos valores dos demais países.
Entretanto, apesar desse aparente conforto, existe uma distribuição espacial desigual dos recursos hídricos no território brasileiro. Cerca de 80% dos recursos hídricos brasileiros (disponibilidade hídrica) estão concentrados na região hidrográfica amazônica, onde se encontra o menor contingente populacional, além de valores reduzidos de demandas de consumo.
Dessa forma, o conhecimento da distribuição espacial da precipitação e, consequentemente, da oferta de água, além da situação da qualidade das águas brasileiras, são fundamentais para determinar o balanço hídrico nas bacias, subsidiando assim a gestão nas áreas de maior estresse hídrico.
O requerimento da audiência pública foi apresentado pelo senador Sérgio Souza (PMDB-PR).
03 novembro 2011
Comissão promove debate sobre gestão de águas
Em termos globais, de acordo com a ANA, o Brasil apresenta uma situação confortável quanto aos recursos hídricos. A disponibilidade hídrica per capita, determinada a partir de valores totalizados para o país, indica uma situação satisfatória, quando comparada aos valores dos demais países.
Entretanto, apesar desse aparente conforto, existe uma distribuição espacial desigual dos recursos hídricos no território brasileiro. Cerca de 80% dos recursos hídricos brasileiros (disponibilidade hídrica) estão concentrados na região hidrográfica amazônica, onde se encontra o menor contingente populacional, além de valores reduzidos de demandas de consumo.
Dessa forma, o conhecimento da distribuição espacial da precipitação e, consequentemente, da oferta de água, além da situação da qualidade das águas brasileiras, são fundamentais para determinar o balanço hídrico nas bacias, subsidiando assim a gestão nas áreas de maior estresse hídrico.
O requerimento da audiência pública foi apresentado pelo senador Sérgio Souza (PMDB-PR).
01 novembro 2011
Livro chama atenção para a disparidade do consumo de água no mundo
Fotografias destacam importância da água
Um norte-americano médio usa quase 600 litros por dia, enquanto brasileiros usam 132 litros. Já certos habitantes do continente africano têm no máximo 6 litros por dia à disposição. Essa disparidade de consumo é um dos destaques do livro "Água - Conservação e Cultura" (Ed. Cultura Sub).
A obra conta com informações coletadas pela jornalista Laís Duarte, da TV Cultura, e mais de 130 imagens do fotógrafo Adriano Garambini, da National Geographic. “A água está envolvida em todo o meu trabalho”, comenta o profissional, que reúne no livro fotos de cenários diversos, de comunidades ribeirinhas na Amazônia à Ásia.
Segundo pesquisa da autora, o Relatório sobre o Desenvolvimento Hídrico do Terceiro Mundo, da Unesco, prevê que cerca de metade da humanidade estará vivendo em áreas de elevado estresse hídrico até 2030. “É muito pouco tempo e a ficha ainda não caiu para os brasileiros”, enfatiza a jornalista.
A escassez já é combustível para a migração em vários cantos do globo, conta Duarte. Chega a atingir mais de 2 bilhões de pessoas e, em algumas décadas, estima-se que 4 bilhões não terão água para as necessidades básicas.
“Água - Conservação e Cultura”
Autores: Adriano Gambarini e Laís Duarte
Editora: Cultura Sub (http://loja.culturasub.com/index.php)
Preço: R$110,00 (208 páginas)
Lançamento: Rio de Janeiro:
Data: 17/11, das 17h às 20h
Local: Livraria Travessa – Centro
Rua Sete de setembro, 54
São Paulo:
Data: 24/11, das 18:30 às 21:30h
Local: Livraria da Vila Shopping – Cidade Jardim
Av. Magalhães de Castro, 12.000 - Butantã
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28 outubro 2011
Falta de água é o maior entrave para alimentar população crescente, diz Graziano
Diretor eleito da FAO diz que enquanto 1 bilhão passam fome, 2 bilhões de pessoas estão obesas.
A necessidade de aumentar a produção agrícola para alimentar a crescente população mundial pressionará os recursos naturais, principalmente a água, segundo José Graziano, que em 2012 assumirá a direção geral da FAO (agência da ONU para agricultura e segurança alimentar).
"A água se tornou o maior entrave à expansão da produção (de comida), especialmente em algumas áreas como a região andina, na América do Sul, e os países da África Subsaariana", diz à BBC Brasil Graziano, atualmente diretor da FAO para a América Latina e ex-ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome no governo Luiz Inácio Lula da Silva, quando foi o responsável pela implementação do Programa Fome Zero.
Segundo previsão da FAO, até 2050, a produção mundial de alimentos terá de crescer 70% para dar conta do aumento populacional.
Graziano diz que, apesar da pressão sobre os recursos naturais, é possível pôr fim à fome no mundo por meio de quatro ações principais: a aplicação de tecnologias modernas na lavoura (muitas já disponíveis), a criação de uma rede de proteção social para populações mais vulneráveis, a recuperação de produtos locais e mudanças nos padrões de consumo em países ricos.
"Se pudéssemos mudar o padrão de consumo em países desenvolvidos, haveria comida para todos", diz ele. "Nós desperdiçamos muita comida hoje, não só na produção, mas também no transporte e no consumo".
Segundo Graziano, enquanto a comida é mal aproveitada em nações ricas, cerca de 1 bilhão de pessoas passam fome em países emergentes.
"Precisamos assegurar que esse bilhão de pessoas sejam alimentados, que tenham bons empregos, bons salários e, se não pudermos dar-lhes empregos, encontrar uma forma de proteção social para eles".
Bolsa Família
Graziano afirma que programas de transferência de renda, como o Bolsa Família no Brasil, hoje atendem cerca de 120 milhões de pessoas na América Latina, ajudando a combater os índices de fome na região. Ele defende ampliar essas ações para outros países afetados pela falta de alimentos, especialmente na África.
Outra ação que Graziano advoga é recuperar produtos agrícolas típicos de cada região. Segundo ele, por não serem commodities, esses produtos não são afetados por variações bruscas de preços, o que favorece consumidores e produtores. Além disso, geram um ciclo de produção e consumo local, barateando a comida.
"O que é caro nos alimentos é o transporte, a produção de alimentos é muito barata. Se conseguirmos diversificar, fazer uma regionalização e melhor distribuição de alimentos e consumo, os preços serão muito mais baixos."
Graziano diz ainda que o estímulo à produção de produtos tradicionais ajudaria a diversificar a fonte de alimentos.
"Hoje caminhamos para ter poucos produtos responsáveis pela alimentação de quase 7 bilhões de pessoas. Precisamos diversificar essa fonte, criar maior variabilidade".
Ele afirma que a prioridade dada a alimentos cotados em mercados internacionais tem feito com que a América Latina, por exemplo, venha perdendo a capacidade de produzir feijão - um alimento tradicional altamente nutritivo, produzido a um custo baixo.
Obesidade
A diversificação da produção agrícola, segundo Graziano, também ajudaria a combater outro problema global relacionado à alimentação: os crescentes índices de obesidade, inclusive em países emergentes.
Ele afirma que o número de pessoas com problemas de má alimentação ou obesidade já alcança 2 bilhões, duas vezes mais que o total de pessoas afetadas pela fome.
Ele atribui o índice à "comodidade da vida moderna", que amplia o acesso a produtos industrializados, com alta concentração de açúcares, ao mesmo tempo em que desestimula atividades físicas.
Para Graziano, o combate desse mal também deve incluir ações educativas.
"Achamos que nossas mães sabem o que devemos comer. Isso valia para nossas avós, que colhiam produtos na horta, mas hoje nossas mães buscam comidas prontas, fast food, já que elas também trabalham e têm longas jornadas fora de casa".
Graziano também cobra que as grandes empresas de fast food se sensibilizem quanto ao problema e ampliem a oferta de comidas frescas em seus cardápios.
Biocombustíveis
Na entrevista à BBC Brasil, Graziano também aborda outros dois temas que têm permeado discussões recentes sobre a produção de alimentos: a suposta competição entre a produção de comida e a de bicombustíveis e os riscos que o aumento da produção agrícola impõem à preservação ambiental.
Ele afirma que, em duas das três maiores regiões produtoras de biocombustíveis do globo (Estados Unidos e Europa), houve incremento em alguns preços de alimentos por causa da competição com biocombustíveis.
No Brasil, porém, ele afirma que a produção de etanol a partir da cana de açúcar não teve qualquer impacto nos alimentos, já que a produção cresceu principalmente em terras improdutivas e por meio da modernização de técnicas agrícolas.
Graziano também diz não ver conflitos em conciliar a preservação ambiental à necessidade de ampliar a produção agrícola.
"A intensificação da produção com modernas tecnologias, menor uso de fertilizantes e defensivos pode beneficiar muito o meio ambiente", diz.
"O avanço da tecnologia nessa direção permiria terminar com essa falsa dicotonomia entre ecologistas e agricultores". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
19 abril 2011
O pico da água já terminou
28 de março de 2011 às 10:37h
Por Stephen Leahy, da IPS
Uxbridge, Canadá, 28/3/2011 – Frequentemente se fala do “pico do petróleo” para definir o momento em que esse produto começar, irremediavelmente, a escassear. As medições indicam que a humanidade já passou o “pico da água” e, entretanto, continua a desperdiçá-la. O canadense Kevin Freedman pretende viver este mês com apenas 25 litros de água por dia para cozinhar, beber e limpar, bem abaixo dos 330 litros consumidos em média na América do Norte. Kevin convidou 31 pessoas para participar de sua iniciativa “Desafio para a Conservação da Água”.
“No Canadá e nos Estados Unidos, as pessoas não têm ideia do quanto gastam e do quanto desperdiçam de água”, disse à IPS Kevin, que tomou essa decisão acompanhando o Dia Mundial da Água, comemorado no dia 22. “Embora se gaste menos, é muito difícil usar apenas 25 litros por dia. Não dá para tomar banho nem usar a máquina de lavar. Espero criar uma consciência de que a água é um recurso finito”, ressaltou.
Quase um bilhão de pessoas carecem de água potável, e esse número poderá duplicar em uma única geração na medida em que a demanda superar em 40% o fornecimento sustentável. A humanidade usa mais água do que poderia usar e esgota reservas não renováveis, acumuladas por mais de mil anos em aquíferos profundos. “Não é possível criar água, apenas geri-la”, disse a especialista Margareth Catley-Carlson, ex-funcionária do governo canadense e da Organização das Nações Unidas.
A falta de água é um grande obstáculo para o desenvolvimento de muitos países e regiões, disse Margareth à IPS. A escassez provoca carestia de alimentos, doenças, instabilidade política e até conflitos armados. “O governo acredita que seu papel é distribuir o líquido à população e à indústria”, acrescentou Margareth, diretora da Rede Canadense de Água. “Isso tem que mudar para ser possível gerir o recurso de forma sustentável, pelo bem da sociedade e do meio ambiente”, prosseguiu.
Entretanto, as autoridades não consideram a água um recurso valioso, não mantêm em dia a rede de distribuição e perdem entre 20% e 50% do líquido que deve ser distribuído. Nem mesmo cuidam dela os países do Sul, que têm pouca água. Sua disponibilidade é responsabilidade de mulheres e pobres, que não estão bem representados no governo, explicou Margareth. Os poucos fundos públicos são destinados ao Exército e a outras prioridades. “É tão frustrante. Podemos viver sem petróleo, mas não sem água”, ressaltou.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon pediu urgência aos governos para que invistam nos países pobres no setor de água e saneamento, especialmente em zonas urbanas, onde existe grande necessidade e a demanda aumentou 20% na última década. “Há uma crise de governança, de políticas débeis e má gestão, mais do que de escassez”, diz a declaração de Ban.
Em 2030, a demanda superará em 40% o fornecimento “acessível, confiável e sustentável do ponto de vista ambiental”, segundo a pesquisa feita pela consultoria McKinsey e Cia. Um terço da população, concentrado nas nações em desenvolvimento, viverá em bacias onde o déficit hídrico será superior a 50%, concluiu o estudo “Charting Our Water Future” (Medição de Nosso Futuro Hídrico).
A agricultura consome cerca de 71% da água utilizada atualmente. Existe estreita relação com a disposição de alimentos, segundo a pesquisa. A irrigação inapropriada e ineficaz é responsável pelo gasto. São feitos cultivos que exigem muita água, como o milho, em lugares secos, como a Espanha. Até o açúcar, com baixo valor alimentício, é cultivado com sistema de irrigação em alguns lugares. “É um absurdo”, lamentou Margareth.
Políticas erradas, subsídios como os concedidos aos biocombustíveis, acordos comerciais e maus hábitos são em grande parte responsáveis pela utilização irresponsável da água na produção de alimentos, explicou a especialista. O uso doméstico representa apenas 8% do consumo. A indústria é outro grande consumidor. Todos os produtos têm um componente hídrico, que se costuma chamar de “água virtual”, para descrever o volume utilizado para fabricar algo.
“Por exemplo, um computador de escritório exige 1,5 tonelada de água, um par de calça jeans, mais de seis toneladas, um quilo de aveia, uma tonelada, um quilo de frango, entre três e quatro toneladas, e um quilo de carne, de 15 a 30 toneladas”, explicou Nicholas Parker, presidente da Cleantech Group, empresa internacional que trata de acelerar o desenvolvimento e a adoção de tecnologias limpas.
O comércio mundial de “água virtual” superou 800 milhões de toneladas, equivalente a dez rios Nilo. “As pessoas não se dão conta de quanta água há em tudo o que fazemos ou compramos, de camiseta a vinho”, insistiu Nicholas.
Todo mundo pode se converter em um administrador melhor de água, disse Kevin Freedman. As lições aprendidas neste mês consumindo apenas 25 litros por dia poderão ser aplicadas a todo o ano, afirmou. “Na América do Norte, todas as pessoas podem reduzir seu consumo de água em pelo menos 25 litros. Desafio as pessoas a se comprometerem com essa meta”, ressaltou. Envolverde/IPS
Envolverde
Envolverde é uma revista digital que aborda assuntos ligados ao Meio ambiente, Educação e Sustentabilidade. É vencedora do 6º. Prêmio Ethos de Jornalismo na Categoria Mídia Digital.
http://www.cartacapital.com.br/carta-verde/o-pico-da-agua-ja-terminou
04 abril 2011
Rio teme guerra por água com São Paulo
Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro | 30/03/2011 12:19 - Atualizada em 31/03/2011 12:44
A limitação de recursos hídricos combinada ao crescimento do maior centro urbano do País está levando São Paulo a procurar novas fontes de água. Uma das possibilidades em estudo é desviar o curso do Rio Paraíba do Sul, que abastece 14,3 milhões de pessoas, das quais 12 milhões vivem no estado fluminense. Nem ficou pronto, o relatório já desperta críticas de representantes do Rio, temerosos de que a bacia hidrográfica seja insuficiente para saciar a sede de todos.
Tudo começou em 2008, quando o então governador de São Paulo, José Serra, instituiu um grupo de trabalho para avaliar como suprir o aumento na demanda por água nos próximos anos. A Agência Nacional de Águas (ANA), em seu Atlas divulgado neste mês de março, estima que o estado precisará de mais 60 m³ por segundo de água até 2035 – um aumento da ordem de 25% no consumo. Uma fonte extra não será suficiente e, além do Rio Paraíba do Sul, o governo paulista procura alternativas de abastecimento nas bacias de Piracicaba, na região de Jundiaí; de Ribeira do Iguape, no litoral sul do estado; do alto do Paranapanema, em Itapetininga; e do Alto Tietê, na Baixada Santista.
Os estudos ficarão prontos até o final deste ano, segundo o governo de São Paulo. Se optar por usar a água do Paraíba do Sul, o estado paulista terá de pedir autorização à ANA, que arbitra conflitos entre estados e é responsável por autorizar o uso de recursos hídricos em rios federais.
O presidente da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) do Rio, Wagner Victer, avalia que o estudo de São Paulo sobre o Rio Paraíba do Sul ainda vai “dar pano para manga”. “Isso terá que ser muito bem discutido; é uma questão muito delicada e polêmica”, avalia.
“Para estudar qualquer pedido de outorga de água, primeiro verificamos se a bacia tem condições de manter os usos de hoje e dos próximos 35 anos, para garantir o abastecimento de quem depende da bacia”, afirma ao iG o superintendente de regulação da agência reguladora, Francisco Lopes Viana. Segundo ele, é comum que estados briguem pela água e a tendência é que haja cada vez mais casos deste tipo. A ANA divulgou recentemente que mais da metade dos municípios poderá ter problemas de abastecimento de água até 2015, mesmo sendo o Brasil um dos países com o maior volume de água do mundo. A razão pela briga é que os rios são mal distribuídos geograficamente.
Favorável em outros casos
Outros estados já brigaram pela água, como a Paraíba com o Rio Grande do Norte, pelas águas do Piranhas Açu, em 2006. Ceará e Piauí também travaram disputa pelo Rio Poti-Longá, em 2008. O caso mais polêmico foi o da transposição do São Francisco, que também passou pelo crivo da ANA antes de ser iniciada. Em todos estes casos, a ANA foi favorável à divisão das águas entre estados, entre outros motivos, para beneficiar o maior número possível de pessoas.
A presidente do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul, Marilene Ramos, não demonstra simpatia pela ideia de fazer do rio fonte de água dos dois maiores centros urbanos do País. Também presidente do Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea) do Rio, ela afirma que há municípios paulistas banhados pelo rio, no Vale do Paraíba do Sul, que amargam escassez de água, a exemplo de Taubaté em períodos de estiagem. E lembra o Rio Paraíba do Sul já sofre uma grande transposição para abastecer quase boa parte da região metropolitana do Rio. Segundo ela, duas transposições num mesmo rio podem trazer impactos tanto para o abastecimento de água já existente como para o meio ambiente.
Boa parte das águas do Paraíba do Sul é transposta para o Rio Guandu, que, por sua vez, abastece 9 milhões de pessoas. Outros 5 milhões de usuários das águas do Paraíba do Sul encontram-se nos municípios banhados pelo rio, que faz um percurso de 1,137 km de extensão pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
A quantidade de água do Paraíba do Sul destinada ao sistema Guandu é da ordem de 160 m³, de acordo com a disponibilidade do Rio Paraíba, segundo Marilene. A vazão total do rio, segundo ela, é de 250 m³ por segundo. Além de ser a maior fonte de água do estado, abastecendo mais de 80% da população, o rio também gera eletricidade para a distribuidora Light.
Além de buscar novas fontes de água, o governo de São Paulo tem projetos para a redução de desperdício de recursos hídricos e para a recuperação de várzeas no Rio Tietê. A preocupação é garantir o abastecimento a região chamada de macrometrópole, que abrange Campinas, Baixada Santista e São José dos Campos, além da capital, num total de 30,8 milhões de pessoas. São consumidos cerca de 225 m³ por segundo na região.
“A preocupação do governo é ter absoluta certeza de que não vai faltar água”, diz o secretário-adjunto da Secretaria Estadual de Saneamento de São Paulo, Rogério Menezes. “Não temos pressa, estamos analisando isso com muito cuidado. O estado de São Paulo vai considerar que o Rio Paraíba do Sul já abastece o Rio”, acrescenta ele.
27 março 2011
Os custos econômicos e sociais do desperdício
Os custos econômicos e sociais do desperdício
Dal Marcondes 26 de março de 2011 às 11:07h
Em quatro anos, mais da metade das cidades brasileiras terão problemas sérios de abastecimento de água. Por Dal Marcondes. Foto: Olga Vlahou
Quando a colônia brasileira começou a ser ocupada em 1500, e os europeus começaram a fundar cidades, pequenas fontes de água bastavam para abastecer uns poucos cidadãos e animais. Ficar perto de grandes rios não era parte dos planos de José de Anchieta e Manoel da Nóbrega. O Colégio dos Jesuí-tas fincou pé num outeiro, lugar apropriado para se defender dos possíveis ataques de índios, mas com muito pouca água. Contudo, dessa vila nasceu São Paulo, metrópole de quase 20 milhões de habitantes que precisam de cerca de 80 litros de água tratada por pessoa, ao dia, para suas necessidades domésticas. Um volume que já não consegue mais ser atendido pelos mananciais próximos, que, pelos critérios da ONU, têm sete vezes menos a capacidade necessária à população que atendem. É preciso ir buscar o líquido cada vez mais longe e tratar águas cada vez mais poluídas, a fim de torná-las próprias para o consumo.
Um levantamento recém-divulgado pela Agência Nacional de Água (ANA) aponta que o problema do abastecimento é generalizado pelo País. Dos 5.565 municípios brasileiros, mais da metade terão problemas de abastecimento até 2015. E para tentar adiar o problema por ao menos uma década será preciso desembolsar 22 bilhões de reais em obras de infraestrutura, construção de sistemas de distribuição, novas estações de tratamento e manutenção de redes muito antigas, que perdem mais de 30% da água tratada antes de chegar à casa dos clientes. E nesse valor não estão incluídos os recursos necessários para resolver o problema do saneamento básico, com a construção de sistemas de coleta de esgoto e estações de tratamento, de forma a proteger os mananciais onde se faz a captação para consumo humano. Para isso, segundo a ANA, serão necessários outros 47,8 bilhões de reais.
Os investimentos não são necessários apenas porque 13% dos brasileiros não têm um banheiro em casa, ou porque mais de 700 mil pessoas entopem os serviços de saúde a cada ano em virtude de doenças provocadas pelo contato com água contaminada por esgotos, ou ainda porque sete crianças morrem por dia vítimas de diarreia, engrossando a estatística de mortes por problemas gastrointestinais (em 2009, elas somaram 2.101 casos). Acredita-se que mais da metade poderiam ter retornado com saúde para suas famílias, ou mesmo nem ter ficado doentes, caso o Brasil estivesse entre as nações que oferecem saneamento básico universal à população.
Para tornar a situação ainda mais dramática, um pesquisador da Universidade do México, Christopher Eppig, concluiu: crianças que enfrentam doenças, principalmente ligadas a diarreia e desidratação, podem ser afetadas em seu desenvolvimento intelectual. Segundo ele, a explicação é simples. Alguns parasitas alimentam-se de partes do corpo humano e a reposição desse dano tem alto custo energético. “Em um recém-nascido, 87% das calorias absorvidas na alimentação vão para o cérebro, porcentagem que cai para 23% na fase adulta. Daí a preocupação em se saber se doenças que “roubam” energia das crianças podem afetar seu desenvolvimento intelectual.”
Especialistas apontam que a questão da água, ao menos no caso brasileiro, está mais ligada a problemas relacionados à gestão do que à escassez propriamente dita. Com 12% da água doce superficial do planeta, grande parte dela na Bacia Amazônica, o País deveria estar tranquilo em relação ao futuro do abastecimento. Mas a distribuição da água pelo território é desigual, principalmente quando comparada à concentração da população. A Região Norte tem 68% da água e apenas 7% da população. O Nordeste e o Sudeste concentram 72% dos habitantes e menos de 10% da água. O cientista José Galizia Tundisi, autor do livro “Água no Século XXI” e especialista nas dinâmicas de rios, lagos e outros mananciais, acredita que uma das primeiras providências a serem tomadas para melhorar a gestão dos recursos hídricos é “realizar a avaliação econômica dos serviços prestados pelos recursos dos ecossistemas aquáticos”. Para ele, instituir um valor para esses serviços é a base para uma governança adequada, essencial para o controle de clima, o abastecimento e a produção de energia e alimentos, entre outras atividades humanas.
Muitas empresas compreenderam o desafio e estão adiantadas na gestão dos usos de água em seus processos produtivos. A indústria de celulose, por exemplo, reduziu em quase 50% suas necessidades de água por tonelada de produto desde a década de 1970. Segundo a associação do setor, a média era de 100 metros cúbicos de água por tonelada de celulose e caiu para apenas 47 metros cúbicos atualmente. Outros setores seguiram a mesma linha, não apenas ao reduzir a quantidade de água necessária por unidade de produto, mas ao implantar sistemas de tratamento de águas industriais que permitem fechar o ciclo entre o uso e o reúso, como é o caso da germânica Basf em suas unidades do ABC Paulista e Guaratinguetá. Nos últimos dez anos, a companhia conseguiu reduzir em 78% o consumo de água por tonelada produzida e em 62% a geração de efluentes de seus processos industriais. São exemplos que poderiam ser difundidos por diferentes setores, pois a água é um insumo fundamental à agricultura e à indústria. Sua gestão não tem relação apenas com o bem-estar da população, mas com a saúde da economia.
Quase tudo que é produzido no País tem sua cota de água embutida. Os especialistas denominam de “água virtual”. Como exemplo, para se produzir 1 quilo de arroz são necessários 3 mil litros de água, e 1 quilo de carne bovina precisa de 15,5 mil litros. Uma simples xícara de café não gasta menos do que 140 litros de água. Não é que essa água desapareça depois de servido o cafezinho, mas para se chegar aos produtos tão necessários nas mesas das pessoas é preciso que ela esteja não apenas disponível, mas limpa, isenta de contaminações por esgotos ou produtos químicos. E há mais. Para um automóvel chegar à garagem dos brasileiros, o consumo de recursos hídricos chega a 150 mil litros. Ou seja, a economia precisa, e muito, de água de boa qualidade. Isso sem mencionar o fato de que 18% das faltas de trabalhadores ao serviço poderiam ser evitadas com uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos.
Segundo a ministra do Meio Ambiente, Izabela Teixeira, o estudo lançado pela ANA é um primeiro passo para um importante debate sobre como o estresse hídrico dos mananciais afeta o abastecimento das principais regiões metropolitanas e piora a situação da água em todos os municípios brasileiros. Para ela, é necessário encarar o fato de que a segurança no abastecimento de água é estratégica e que o recurso é escasso. “Precisamos investir na infraestrutura, mas também mudar a forma de usar esse recurso e coibir os desperdícios”, disse na terça-feira 22, escolhido para ser o Dia Mundial da Água. Segundo a ministra, os investimentos necessários para minimizar os problemas com água, estimados pela ANA em 22 bilhões de reais, já estão sendo feitos em diversas esferas de governo, nas obras do PAC, do governo federal, e por estados e municípios. Ela lembra, porém, que existem fatores que dependem de mudanças de comportamento da sociedade. “Há um grande desperdício de água pelas populações e empresas que têm acesso ao recurso e não o tratam como um bem escasso.”
A questão da gestão dos recursos hídricos passou por uma grande transformação no Brasil no fim do século passado, quando as empresas estaduais de água e saneamento perderam o monopólio do mercado. Muitas foram municipalizadas e outras privatizadas, além de terem continuado a existir companhias estaduais, como o caso da Sabesp, em São Paulo, uma referência para o setor. A Sabesp é a única empresa de saneamento a fazer parte do Índice Dow Jones Sustainability, e do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&F-Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. Mas o período de mudanças no País não foi tranquilo nem a gestão privada se mostrou um bom negócio em todos os casos. A cidade de Manaus, por exemplo, foi a primeira capital a privatizar os serviços. O abastecimento não deveria, aliás, ser problema para um município que tem quase 10% da água doce do planeta a escorrer à sua porta pelos rios Negro, Solimões e Amazonas. Mas não é bem assim. Em 2000, a gestão foi transferida para a francesa Suez, a mesma que, por sua administração desastrada, quase provocou um golpe de Estado na Bolívia.
Para os franceses, parecia fácil. Havia muita água disponível e uma população de quase 2 milhões de habitantes que deveria pagar por ela. Tradicionalmente, o serviço público de água da cidade era muito ruim, portanto, “bastaria oferecer um bom serviço” para a conta fechar. Ledo engano. Como o serviço público nunca funcionou, a elite urbana da cidade nunca dependeu dele. A maior parte das casas e condomínios abastados tem seu abastecimento garantido por poços artesianos, um serviço que, depois de implementado, é de graça, sem conta mensal. A empresa francesa ficou apenas com a gestão do consumo da população pobre e com a obrigação de recolher o esgoto da cidade, pelo qual também não se pagava, uma vez que a taxa de esgoto está embutida na conta de água. Em 2007, a Suez saiu da sociedade com o grupo brasileiro Solvi e a Águas do Amazonas continua privatizada, mas agora sob a gestão de um grupo nacional que teve de renegociar as condições do contrato de concessão com a prefeitura.
Outro mau exemplo foi a municipalização da empresa de água em Guarulhos, uma das maiores cidades da região metropolitana da São Paulo. Apesar de ter uma rede de esgotos que abrange a maior parte do município, a companhia não trata um litro sequer do esgoto coletado. É de lá que vem a poluição que transformou o rio Tietê em um canal fétido e putrefato.
O esgoto não tratado tem impacto sobre outro setor estratégico da economia, o turismo. Principalmente no Nordeste, a presença de “línguas negras” a cruzar praias que deveriam ser refúgios ambientais assusta os operadores turísticos e preocupa o setor hoteleiro. Mas mesmo regiões do “Sul Maravilha”, como Santa Catarina, muito buscada por turistas sul-americanos, padece da falta de infraestrutura. Florianópolis tem apenas 67% de acesso à rede de esgotos, enquanto o badalado município de Canavieiras tem pouco mais de 40% do esgoto coletado. As duas cidades têm as melhores redes estaduais. A quinta colocada não chega a tratar 3% dos dejetos.
Nos próximos anos, o Brasil vai receber grandes eventos internacionais, a começar pela Cúpula das Nações Unidas Rio+20, que reunirá chefes de Estado e de governo para debater os avanços e as crises ambientais do planeta. Em seguida virão a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Um dos indicadores fundamentais de desenvolvimento é o acesso à água de boa qualidade e a coleta e tratamento universal de esgotos, setores em que o País ainda tem muito a caminhar. Dados de 2007 do IBGE mostravam que 90% dos domicílios têm acesso a redes de água tratada. Na área rural, o número não passa de 50%, enquanto no caso da coleta e tratamento de esgotos os dados são completamente díspares. Vão de 40% a 77% de esgotos coletados. Mas apenas 36% passam efetivamente por uma estação de tratamento antes de serem devolvidos aos cursos d’água.
*Colaborou Naná Prado
http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/os-custos-economicos-e-sociais-do-desperdicio-2