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09 agosto 2011

Especialistas avaliam risco que nova classe C impõe ao governo



SHEILA D'AMORIM
DE BRASÍLIA


Os riscos que o surgimento da nova classe C impõe ao governo tomou conta do debate organizado pela SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos) sobre Políticas Públicas para uma Nova Classe Média, nesta segunda-feira, em Brasília.

Eduardo Gianetti, professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) destacou a necessidade de o governo incentivar a educação financeira. "Crédito é um produto perigoso. É fácil algo benéfico se tornar algo ruim se for mal utilizado".

Segundo ele, é comum ver pessoas fazendo "extravagâncias" no crédito. "Isso pode se tornar uma tragédia coletiva, como os países ricos nos mostram agora", completou, referindo-se à turbulência internacional atual, originada numa crise de financiamentos imobiliários, no final de 2008.

Ricardo Paes de Barros, secretário de Ação Estratégica da SAE, destacou que insistir na nova classe média apenas como consumidores tem outro lado, que é a pressão inflacionária e os desequilíbrios nas contas externas. Isso, se a oferta não acompanhar a demanda por bens e serviços e houver aumento de importações.

Renato Meirelles, sócio do instituto Data Popular, focado em pesquisas sobre o comportamento dessa população, rebateu afirmando que foi o consumo da classe C que ajudou o Brasil a enfrentar os desdobramentos iniciais da crise ao longo de 2009 e que, em vez de pensar em frear o consumo dela, o governo deve investir no aumento da produtividade e da competitividade da indústria brasileira como forma de aliviar as pressões inflacionários e por importações, advindas do crescimento.

Segundo ele, o fortalecimento do mercado doméstico permite ao Brasil enfrentar melhor situações como a dos últimos anos. 'Em 2010, somente o 13º. salário da classe D colocou na economia, em um único mês, valor equivalente a 16 meses de pagamento do Bolsa Família. Não existe programa mais eficiente de distribuição de renda do que o aumento do emprego'.

INCONSISTÊNCIAS

A situação brasileira, para Gianetti, mostra várias inconsistências. "A nova classe média quer automóvel, mas temos estradas para atender esse crescimento? Ela quer máquina de lavar, televisores, computador, mas temos geração e distribuição de energia para essa demanda? Viaja-se mais de avião, mas não temos aeroportos. Fizemos o Minha Casa, Minha Vida [programa para construção de moradias populares] e não temos saneamento, que estava na agenda do século 19".

Para o diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Luiz Awazu Pereira, o Brasil não é excessivamente dependente da conjuntura internacional para crescer e está 'preparado para enfrentar eventos negativos sem perder a sustentação' do modelo atual de crescimento.

No entanto, ele admite que há questões internas que representam grandes desafios ao governo. "A demanda de bens duráveis é atendida por importações. Se isso se prolongar pode gerar desequilíbrio macroeconômico, com impacto sobre a viabilidade da nossa situação externa", disse.

Segundo ele, o governo tem que "responder a isso com a suavização desse patamar de consumo". Pereira defendeu que o endividamento das famílias deve ser compatível com nível de renda delas e que a poupança seja estimulada.

De acordo com o diretor, para dar sustentabilidade ao modelo atual, é preciso não só moderação e prudência na concessão e tomada de crédito, mas também "investir em educação financeira, em infraestrutura", além de "desestrangular setores e dar respostas de competitividade e produtividade" nas áreas pressionadas por um novo patamar de demanda de bens e serviços.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/956520-especialistas-avaliam-risco-que-nova-classe-c-impoe-ao-governo.shtml

03 agosto 2011

Mais de 40% dos alunos das federais são das classes C, D e E

Pesquisa traça perfil dos estudantes das universidades federais. Negros representam menos de 10%, pardos chegam a 32%

Uma pesquisa da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que será lançada nesta quarta-feira (3), traçou o perfil dos estudantes das universidades federais do País. Os dados mostram que 8,72% dos alunos são negros. Os brancos representam a maioria 53,9%, os pardos 32% e os indígenas menos de 1%. Cerca de 43% do total são das classes C, D e E.

O percentual de alunos de baixa renda é maior nas instituições de ensino das regiões Norte (69%) e Nordeste (52%) e menor no Sul (33%). Para a Andifes, o resultado do estudo, que teve como base 22 mil alunos de cursos presenciais, desmistifica a ideia de que a maioria dos estudantes das federais é de famílias ricas. Os dados mostram, entretanto, que o percentual de alunos das classes mais baixas permaneceu estável em relação a outras pesquisas feitas pela entidade em 1997 e 2003.

Segundo o presidente da Andifes, João Luiz Martins, as políticas afirmativas e a expansão das vagas nas federais mudaram consideravelmente o perfil do estudante. A associação avalia que se não houvesse as políticas afirmativas, o atendimento aos alunos de baixa renda nessas instituições teria diminuído no período.

Evolução tímida

Ainda que a participação dos negros nas federais seja pequena, houve um crescimento em relação à pesquisa anterior produzida pela Andifes em 2003, quando menos de 6% dos alunos eram negros. Isso significa um aumento de 47,7% na participação dessa população em universidades federais.

Para Martins, a evolução é “tímida”. Ele defende a necessidade de políticas afirmativas mais agressivas para garantir a inclusão. “A universidade tem uma dívida enorme em relação a isso (inclusão do negro). Há necessidade de ampliar essas ações porque o atendimento ainda é muito baixo”, avalia.

A entidade é contra uma legislação ou regra nacional que determine uma política comum para todas as instituições, como o projeto de lei que tramita no Senado e determina reserva de 50% das vagas para egressos de escolas públicas. “Cada um de nós tem uma política afirmativa mais adequada à nossa realidade. No Norte, por exemplo, a universidade precisa de uma política que tenha atenção aos indígenas. No Sul, o perfil já é outro e na Bahia outro”, explica Martins.

Assistência estudantil

Martins destaca que se forem considerados os estudantes com renda familiar até cinco salários mínimos (R$ 2.550), o percentual nesse grupo chega a 67%. Esse é o público que deveria ser atendido – em menor ou maior grau – por políticas de assistência estudantil. A entidade defende um aumento dos recursos para garantir a permanência do aluno de baixa renda na universidade. “Em uma família com renda até cinco salários mínimos, com três ou quatro dependentes, a fixação do estudante na universidade é um problema sério”, diz Martins, que é reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

O estudo identifica que 2,5% dos alunos moram em residência estudantil. Cerca de 15% são beneficiários de programas que custeiam total ou parcialmente a alimentação e um em cada dez recebe bolsa de permanência.

Vânia Silva, 26 anos, ex-aluna do curso de pedagogia da Universidade de Brasília (UnB), contou, ao longo de toda a graduação, com bolsas e outros tipos de auxílio. No primeiro semestre, a ajuda era de R$ 130, insuficiente para os gastos com alimentação, transporte e materiais. Ela participou de projetos de pesquisa e extensão na universidade para aumentar o benefício e conseguiu moradia na Casa do Estudante. Mas viu colegas desistirem do curso porque não tinham condições de se manter.

“Para quem quer ter um bom desempenho acadêmico, o auxílio é muito pequeno. Esse dinheiro eu deveria gastar em livros ou em viagens para participar de encontros de pesquisadores, mas usava para custear minhas necessidades básicas”, conta. Hoje, ela é aluna de pós-graduação e a bolsa que recebe continua sendo insuficiente para os objetivos que pretende alcançar. “Já tive trabalhos inscritos até em congressos internacionais, mas com essa verba não dá para bancar uma viagem”, diz.

Inclusão desigual

Os reitores destacam que a inclusão dos estudantes das famílias mais pobres não é a mesma em todos os cursos. Áreas mais concorridas como medicina, direito e as engenharias ainda recebem poucos alunos com esse perfil. Cerca de 12% das matrículas nas federais são trancadas pelos alunos e, para a associação, a evasão está relacionada em grande parte à questão financeira.

“Em outras parte do mundo, a preocupação do reitor é com a qualidade do ensino e com a pesquisa. Mas aqui, além de se preocupar com um bom ensino, ele também tem que se preocupar com a questão social”, compara Álvaro Prata, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Para 2012, a Andifes reivindicou ao Ministério da Educação (MEC) que dobre os recursos destinados à assistência estudantil. A previsão é que a verba seja ampliada dos atuais R$ 413 milhões para R$ 520 milhões, segundo a entidade. “Com a política de cotas e a expansão da UnB para as cidades satélites, houve um aumento muito grande da necessidade de políticas de assistência estudantil. Mas isso é secundário para o governo e a própria administração da universidade. Muitas vezes, eles acham que têm que trabalhar para ter mais sala de aula e laboratório, mas não há o restaurante universitário”, observa a representante do Diretório Central dos Estudantes da UnB, Mel Gallo.

O estudo mostra que os alunos egressos de escolas públicas são 44,8% dos estudantes das universidades federais. Mais de 40% cursaram todo o ensino médio em escola privada. O reitor da Universidade Federal do Pará (Ufpa), Carlos Maneschy, explica que na instituição metade das vagas do vestibular é reservada para egressos da rede pública. Desse total, 40% são para estudantes negros. Ele acredita que nos próximos anos a universidade terá 20% de alunos da raça negra. “Antes, nem 5% eram de escola pública”, diz.

* Informações da Agência Brasil, reportagem de Amanda Cieglinski
http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/mais+de+40+dos+alunos+das+federais+sao+das+classes+c+d+e+e/n1597114718398.html

31 julho 2011

Miséria persiste em 30 das 200 cidades com PIB mais alto

Olhando apenas para a atividade econômica, o município de São Desidério parece uma ilha de prosperidade no extremo oeste da Bahia.

A intensiva produção de algodão, soja e milho faz a cidade, de 28 mil habitantes, se orgulhar de ter a segunda maior produção agropecuária do país, e o 112º PIB per capita (soma de bens e serviços produzidos, dividida pelo total de habitantes) entre os 5.564 municípios brasileiros.

Veja galeria de fotos
Indicador econômico não reflete desenvolvimento com clareza; veja análise

Essa aparente riqueza, no entanto, não se traduz em bons indicadores sociais.

Tal contradição se repete em municípios onde a riqueza é gerada por empreendimentos industriais ou lavouras de exportação que concentram renda e criam relativamente poucos empregos.

De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, 30% da população de São Desidério, por exemplo, vive em domicílios com renda média per capita inferior a R$ 70, linha de miséria do governo federal.

Comparando o PIB per capita, o município está entre os 2% mais ricos do país. Analisando a miséria, figura entre os 20% mais pobres.

Uma análise feita pela Folha nos indicadores sociais dos 200 municípios de maior PIB per capita mostra que São Desidério não é um caso isolado. Em 30 dessas cidades, a proporção de brasileiros vivendo com menos de R$ 70 per capita fica acima da média nacional, de 9,6%.

A maioria desses municípios é de pequeno porte, mas concentra grandes empreendimentos, o que explica que o PIB per capita seja elevado.

Entre as características mais comuns deste grupo estão atividades ligadas à indústria de petróleo (dez casos), cultivo de soja ou grãos (oito) e hidrelétricas (cinco).

Segundo Júlio Miragaya, economista do Conselho Federal de Economia, essas atividades geram muita riqueza, mas empregam pouco.

José Ribeiro, economista e demógrafo da OIT (Organização Internacional do Trabalho), concorda: "É importante desmistificar a ideia dos grandes empreendimentos como agentes exclusivos do desenvolvimento".

Sheila Zani, responsável pelo cálculo do PIB municipal do IBGE, faz outra ponderação: nem sempre a riqueza gerada é absorvida pela cidade. "Muitos dos empregados mais qualificados moram em grandes centros, onde a é renda absorvida."

Se não há necessariamente geração de emprego local, algumas dessas cidades ao menos deveriam se beneficiar de arrecadação maior. "Mas a gestão municipal não consegue reverter o montante expressivo de impostos na melhoria das condições de vida", diz Ribeiro, da OIT.

Em São Desidério, é fácil entender por que o PIB não se traduz em bem-estar. Há grandes fazendas com lavouras mecanizadas. Os donos moram em outras cidades e chegam de avião. A riqueza fica na mão de poucos e vai para fora da cidade.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/951982-miseria-persiste-em-30-das-200-cidades-com-pib-mais-alto.shtml

Miséria persiste em 30 das 200 cidades com PIB mais alto

Olhando apenas para a atividade econômica, o município de São Desidério parece uma ilha de prosperidade no extremo oeste da Bahia.

A intensiva produção de algodão, soja e milho faz a cidade, de 28 mil habitantes, se orgulhar de ter a segunda maior produção agropecuária do país, e o 112º PIB per capita (soma de bens e serviços produzidos, dividida pelo total de habitantes) entre os 5.564 municípios brasileiros.

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Indicador econômico não reflete desenvolvimento com clareza; veja análise

Essa aparente riqueza, no entanto, não se traduz em bons indicadores sociais.

Tal contradição se repete em municípios onde a riqueza é gerada por empreendimentos industriais ou lavouras de exportação que concentram renda e criam relativamente poucos empregos.

De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, 30% da população de São Desidério, por exemplo, vive em domicílios com renda média per capita inferior a R$ 70, linha de miséria do governo federal.

Comparando o PIB per capita, o município está entre os 2% mais ricos do país. Analisando a miséria, figura entre os 20% mais pobres.

Uma análise feita pela Folha nos indicadores sociais dos 200 municípios de maior PIB per capita mostra que São Desidério não é um caso isolado. Em 30 dessas cidades, a proporção de brasileiros vivendo com menos de R$ 70 per capita fica acima da média nacional, de 9,6%.

A maioria desses municípios é de pequeno porte, mas concentra grandes empreendimentos, o que explica que o PIB per capita seja elevado.

Entre as características mais comuns deste grupo estão atividades ligadas à indústria de petróleo (dez casos), cultivo de soja ou grãos (oito) e hidrelétricas (cinco).

Segundo Júlio Miragaya, economista do Conselho Federal de Economia, essas atividades geram muita riqueza, mas empregam pouco.

José Ribeiro, economista e demógrafo da OIT (Organização Internacional do Trabalho), concorda: "É importante desmistificar a ideia dos grandes empreendimentos como agentes exclusivos do desenvolvimento".

Sheila Zani, responsável pelo cálculo do PIB municipal do IBGE, faz outra ponderação: nem sempre a riqueza gerada é absorvida pela cidade. "Muitos dos empregados mais qualificados moram em grandes centros, onde a é renda absorvida."

Se não há necessariamente geração de emprego local, algumas dessas cidades ao menos deveriam se beneficiar de arrecadação maior. "Mas a gestão municipal não consegue reverter o montante expressivo de impostos na melhoria das condições de vida", diz Ribeiro, da OIT.

Em São Desidério, é fácil entender por que o PIB não se traduz em bem-estar. Há grandes fazendas com lavouras mecanizadas. Os donos moram em outras cidades e chegam de avião. A riqueza fica na mão de poucos e vai para fora da cidade.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/951982-miseria-persiste-em-30-das-200-cidades-com-pib-mais-alto.shtml

01 julho 2011

Educação e renda

Pesquisador do Ipea explica como o investimento em educação se torna um dos principais motores do desenvolvimento da economia do país, alavanca a produção de bens e serviços e melhora a distribuição de renda

por Patrícia Pereira | fotos Paulino Menezes
O pesquisador lembra que o impacto da educação na economia está relacionado aos dois milhões de empregos diretos ao consumo de matériais e infra-estrutura

Entre todos os gastos sociais feitos pelo governo, investir em educação é o que mais faz o país crescer. Além dos conhecidos efeitos de longo prazo, como combater o analfabetismo e formar uma população mais instruída e produtiva, o dinheiro aplicado em educação no curto prazo movimenta a economia interna, estimulando o consumo e a produção de bens e serviços. O estudo Gastos com a Política Social: Alavanca para o crescimento com distribuição de renda, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), mostra que quando o governo gasta R$ 1,00 em educação pública, o PIB aumenta em R$ 1,85 e a renda das famílias aumenta em R$ 1,67.

O incremento do PIB e da renda é maior do que promovem investimentos em outros programas sociais, como os ligados à saúde e os de transferência de renda, como o Bolsa Família. Para chegar a esses multiplicadores, os pesquisadores cruzaram dados do Sistema de Contas Nacionais do IBGE, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) e da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e avaliaram o quanto o incremento de 1% do PIB em cada programa social do governo aumentaria o próprio PIB e elevaria a renda das famílias. Quem explica os resultados da pesquisa é o diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Jorge Abrahão.

Ensino Superior: De que maneira uma política social, como investir em educação, pode levar ao aumento do PIB e à melhor distribuição da renda?
Jorge Abrahão: Em geral, as pessoas olham a política social apenas como prestadora de serviços, fornecedora de bens e transferidora de recursos. Mas para colocar a política social em prática é preciso fazer um gasto público, ou seja, contratar professores, médicos, enfermeiros, psicólogos. Mais ou menos 4,7 milhões de trabalhadores são absorvidos - grande parte para a área de Educação. Quando se fazem essas contratações, quando se constroem escolas, postos de saúde etc. e, ao mesmo tempo, compram-se equipamentos e outros materiais para tal atividade, então esse movimento contribui para o crescimento do PIB.

ES: De que forma?
Esse gasto público vai para um conjunto da população que, em geral, são as classes médias ou médias baixas, que incrementam o consumo dentro do país, sendo importante para o fortalecimento do mercado interno. E aí vira um ciclo econômico. O professor, que vai receber seu salário, vai comprar no supermercado, na padaria, no açougue; todos vão para o mercado brasileiro fazer compras. Como a maioria desses produtos é nacional, isso gera um outro montante de emprego e de renda para outros setores, o que estimula a produção de novos bens, o comércio e os serviços. O gasto na política social alavanca uma série de outros vetores produtivos. É uma cadeia que move a economia e gera multiplicadores. Assim, a política social, além daquilo que promove em longo prazo, também gera no curto prazo um processo de crescimento econômico.

ES: O investimento em educação é o que aparece na pesquisa como sendo o que mais eleva o crescimento do país (PIB) e a distribuição de renda. Por quê?
A educação recebe mais ou menos 5% do PIB e tem um impacto muito grande na economia. É um dos setores mais gastadores, maior do que ela só a Previdência. A educação é responsável por dois milhões de empregos diretos, fora o consumo de materiais e da infraestrutura, ou seja, é uma cadeia grande de consumo. A importância de seu gasto é que a faz ter um maior multiplicador do PIB, o tamanho que ela representa.

ES: Quando se fala em educação, estão incluídos todos os níveis de ensino. Qual é o impacto nos investimentos ligados especificamente ao nível superior?
Nós não detalhamos isso na pesquisa, mas nesse caso o impacto pode ser menor. Ao supor que, dentro da cadeia da educação, o professor universitário é o que tem melhor remuneração e sendo seu padrão de consumo diferente daquele do professor do ensino básico, que acaba consumindo quase tudo o que ganha, o docente da educação superior tem uma estrutura que lhe permite poupar e também consumir bens mais sofisticados, muitas vezes importados. Então há vazamento de receita para o exterior. Quando acontece isso, o gasto deste professor é menos relevante para a economia nacional. Por isso, o gasto do professor da educação básica é o principal responsável pelo giro da economia interna.

ES: Mas programas sociais que investem no ensino superior também levam a aumento do PIB e da distribuição de renda?
Lógico, tudo o que é investido na educação leva ao aumento do PIB. Mesmo com um impacto mais sensível para a distribuição de renda e para a economia do país, estamos pensando apenas em um crescimento momentâneo. Mas a longo prazo precisamos olhar para outros vetores desencadeados pelo ensino superior, como desenvolvimento científico, tecnológico e inovação. É um outro lado positivo deste investimento não abarcado por esta pesquisa.

ES: Há áreas da educação superior mais propícias a afetar a economia?
O que importa é quanto o professor ganha e o padrão de consumo dele. E também o que se está gastando para que o ensino ocorra, os insumos que precisam ser comprados para fazer com que os cursos funcionem. Quanto mais necessita de produtos e equipamentos vindos do exterior, menos contribui para o crescimento do PIB. O curso que depende de menos insumos vindos do exterior tende a ter um maior multiplicador. Mas é preciso ter cuidado: a universidade gera pesquisa, desenvolvimento e inovação, por isso há também uma justificativa de investimento não pelo lado do consumo atual, mas pelo que se está gerando para o futuro. Na realidade, sabe-se que está gastando em um setor que não é tão bom para o consumo nacional e a produção nacional, mas que pode dar independência ao país no futuro.

ES: Em países mais desenvolvidos do que o Brasil, com maior PIB e melhor distribuição de renda, o investimento no ensino superior tenderia a ter um multiplicador maior ou menor do que o nosso?
Nos países desenvolvidos, os gastos por aluno que se tem com ensino superior e com ensino básico são muito próximos. Nas escolas de educação básica, o professor tem uma boa remuneração. O diferencial entre o professor da educação básica e o da superior é muito pequeno. O multiplicador é quase idêntico porque os padrões de consumo são muito parecidos.

ES: Mas e numa comparação entre o multiplicador que existe no Brasil e dos países desenvolvidos?
A educação é um vetor de crescimento em qualquer país, vai ter sempre um bom multiplicador. O nosso multiplicador da educação básica vai ser maior do que o deles porque lá há mais homogeneidade entre os setores educacionais. Na educação superior irá depender do país. Em um país muito aberto, quando há incentivo ao consumo dos professores, eles podem comprar só bens externos. Mas os países desenvolvidos não costumam ser muito abertos. Como a educação, em geral, tem um peso de mais de 5% do PIB em quase todos os países, o efeito multiplicador é muito bom, próximo ao nosso ou até melhor.

ES: Há elementos que a pesquisa desconsidera? A que fatores esse índice é vulnerável?
Esta pesquisa lê o mundo em determinado momento, mas não tem uma dinâmica. O setor da educação é muito grande. Para alterar positiva ou negativamente o multiplicador teria, como hipótese, que alterar significativamente o padrão de consumo dos professores. Se todos se transformassem em consumidores de bens estrangeiros, por exemplo, isso traria uma diminuição no multiplicador. Já uma crise econômica impactaria todos os multiplicadores, não só o da educação, porque as pessoas mudariam o padrão de consumo. Outra coisa que altera tudo isso é o câmbio. Se ele torna o consumo externo mais caro, o multiplicador dos setores que consomem muito do exterior pode aumentar ao se importar menos. Toda vez que subirem os salários, principalmente o dos mais pobres, esse multiplicador também aumenta, porque as pessoas passam a consumir mais.

ES: A demanda crescente por mão de obra qualificada faz com que, de alguma forma, o retorno que o investimento no ensino superior traz atualmente aumente ainda mais?
O ensino superior hoje é um fator central para a ampliação da melhoria da renda. Hoje não basta ter apenas o ensino médio, isso já não diferencia tanto quanto no passado. Estamos vivendo um momento interessante, em que o emprego formal no Brasil está sendo ampliado e alguns setores estão se ressentindo da falta de mão de obra. Mas isso não é algo que ocorre em todo o país. Esse é um dilema bom: falta de mão de obra por conta do crescimento. Ainda podemos corrigir isso de forma setorial e espacial. Fora o fato de que vai haver toda uma estrutura de incentivo para promover mais gente qualificada.

http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=12775

20 maio 2011

Distribuição de renda melhorou 10% na última década

Estudo mostra que gastos públicos em serviços como educação e saúde foram essenciais para ajudar a distribuir a renda

Tiago Lubambo/Pick Imagem

Professor em sala de aula

Estudo do Ipea mostra que gastos com educação e saúde não tiram mérito dos programas assistenciais, mas ajudam mais na distribuição de renda

São Paulo – Um estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) mostra que os gastos do governo com educação, saúde e programas assistenciais ajudaram a tornar a distribuição de renda no Brasil 10% melhor na última década.

O instituto usou como base para a análise o índice de Gini, um indicador que mede o grau de desigualdade na população de um país. Este índice varia de zero a um. Quanto mais próximo de zero, melhor distribuída é a renda entre a população.

Segundo a publicação do Ipea, entre 2003 e 2009, o índice de Gini do Brasil passou de 0,548 para 0,496. Os gastos do governo com educação e saúde foram essenciais nesta queda. Se não fossem levados em conta no cálculo do índice, a redução teria sido praticamente a metade (5,5%).

“Apesar de programas assistenciais, como o Bolsa Família, terem sido significativos para aumentar a renda da faixa mais pobre da população, foram os investimentos em saúde e educação os responsáveis por boa parte da redução do índice de Gini”, diz o Ipea na divulgação do estudo.

O técnico do Ipea responsável pelo estudo, Fernando Geiger, diz que isto acontece porque o volume dos investimentos em saúde e educação é muito maior do que o dos recursos de programas como o Bolsa Família. Por outro lado, os programas assistenciais são importantes por serem mais focados, ajudando a aumentar a renda dos 40% mais pobres.
Impostos

A análise do Ipea mostra que as políticas sociais voltadas à melhoria de serviços ajudam a compensar o efeito que alguns impostos têm sobre a renda da população mais pobre. Segundo Gaiger, dois terços dos impostos pagos pela população incidem sobre o consumo e afetam todas as faixas de renda da mesma forma. São os chamados tributos indiretos, como o ICMS, o PIS/COFINS e o IPI.

De acordo com o técnico do Ipea a população mais pobre gasta 30% da sua renda com este tipo de imposto, enquanto os ricos destinam apenas 12% do orçamento. “O sistema tributário é organizado desta forma porque os indiretos, sobre o consumo, são mais fáceis de serem cobrados”, explica.

http://exame.abril.com.br/economia/brasil/noticias/distribuicao-de-renda-melhorou-10-na-ultima-decada