15 setembro 2011

Tunelmania

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joseluizportella/975353-tunelmania.shtml

São Paulo não precisa de mais R$ 3,5 bilhões em túneis. Precisa de metrô. Quanto mais metrô, melhor.

Matéria de Tiago Dantas, no Estadão desta segunda-feira [ http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,kassab-planeja-gastar-r-35-bi-em-tuneis,771303,0.htm ] , dá conta de que a Prefeitura pretende investir R$ 3,5 bilhões de reais na construção de cinco túneis.

Óbvio que sempre haverá necessidade de pequenas passagens subterrâneas, aqui ou ali. Contudo, isso deve ser a exceção e evitado o quanto possível. Alocar R$ 3,5 bilhões, como está anunciado, não faz sentido.

Nenhuma cidade do mundo, nos últimos 25 anos, resolveu seus problemas de trânsito com aumento do sistema viário nem com intervenções desse tipo, pois eles funcionam como incentivo ao uso do transporte individual. Após uma melhoria inicial breve, as vias são rapidamente ocupadas por veículos novos, que entram aos borbotões em circulação, ou pelo estoque de carros que estão nas garagens e rodam de acordo com o trânsito. Melhorou, eles ocupam o espaço.

O túnel da av. Roberto Marinho é um exemplo. Visitei o local com cuidado e concluí que ele vai resolver o problema da av. Bandeirantes por breve e escasso período.O túnel prioriza o carro ao invés de corredores de ônibus.

Quanto ao Metrô e à CPTM, mesmo quando chegarem juntos a 450 km de trilhos com qualidade,precisarão, veementemente, da integração com um grande sistema de corredores de ônibus.

Os corredores são essenciais. Transporte é sinergia. E o sistema exige hierarquia: primeiro, o transporte de alta capacidade sobre trilhos; depois, o de média capacidade, o ônibus.
São Paulo tem cerca de 130 km de corredores de ônibus. Como parte deles não possui ultrapassagem, isso diminui em muito a eficácia desses viários.

Precisamos de mais 300 km de corredores de ônibus. Junto com os 450 km de trilhos, teríamos uma cidade com ótima mobilidade. Seria uma virada fenomenal na qualidade de vida do paulistano.

Além de corredores novos, necessitamos de mudança nos atuais trajetos dos ônibus, que foi postergada. Eles não estão respeitando as novas linhas de metrô e a modernização da CPTM.

Vivemos o "quanto melhor, pior". Quanto mais aumenta ou melhora a qualidade do transporte sobre trilhos, mais gente reduz o tempo de viagem nos ônibus e entra no sistema, que fica cada vez mais lotado. Por isso, mesmo nas linhas onde houve melhorias e prolongamentos, a sensação é de piora na lotação.

Enquanto os ônibus não mudarem seus trajetos e se adaptarem ao novo traçado dos trilhos, a situação vai piorar, em termos de lotação.

O dinheiro a ser gasto em túneis seria mais bem aproveitado se fosse investido em corredores de ônibus e na criação de uma infraestrutura cicloviária, cacifando a bicicleta como meio de transporte. Hoje, existem cerca de 350 mil viagens de bicicleta/dia; 70% por motivo de trabalho.
Um quilômetro de metrô subterrâneo custa cerca de 500 milhões de reais, incluindo obra civil, sistemas e material rodante. Metrô de superfície ou monotrilho, entre R$ 130 e 160 milhões.

Os R$ 3,5 bilhões que a Prefeitura vai gastar em túneis, para não diminuir a superlotação das vias, dariam para construir 300 km de corredores e ainda sobraria dinheiro para implantar ciclovias, ciclorrotas e ciclofaixas. São Paulo seria outra cidade.

Portanto, o anúncio de construção de cinco túneis tem dois méritos: mostrar que se inverterem a prioridade, a cidade de São Paulo poderá ter uma mobilidade fantástica; e que para isso não falta dinheiro.

Falta querer.


José Luiz Portella Pereira, 58, é engenheiro civil especializado em gerenciamento de projetos, orçamento público, transportes e tráfego. Foi secretário-executivo dos Ministérios do Esporte e dos Transportes, secretário estadual dos Transportes Metropolitanos e de Serviços e Obras da Prefeitura de São Paulo e presidente da Fundação de Assistência ao Estudante. Formulou e implantou o Programa Alfabetização Solidária e implantou o 1º Programa Universidade Solidária. Escreve às quintas-feiras na Folha.com.