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16 abril 2011

Llosa e FHC: sob fogo cerrado

Vitor Hugo Soares
De Salvador (BA)


Artigo de Fernando Henrique Cardoso sobre o papel da oposição causou polêmica entre tucanos e petistas (Foto: Ale Cabral/Futura Press)

Crivado de flechas impiedosamente - como o São Sebastião da música de Chico Buarque -, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso anda atônito e desolado. Sobre ele desabam saraivadas de críticas, partidas indistintamente de adversários e aliados. Entre estes (o que mais dói como dá para sentir nas reações de FHC) combatentes da primeira hora do PSDB - políticos e intelectuais de mais rica plumagem no tucanato brasileiro.

O mais espantoso: o fogo cerrado começou imediatamente depois do presidente honorário do PSDB produzir - em tempo de muita intriga e pensamento ralo e rasteiro - um dos mais brilhantes, completos e elevados textos políticos em forma e conteúdo sobre os descaminhos e equívocos das oposições no Brasil.

Aparentemente, uma única frase, que inclui a palavra "povão", fez explodir toda a arenga: "Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes, e pouco informadas, falarão sozinhos", escreveu Fernando Henrique Cardoso no ensaio "O papel da oposição", produzido para a revista "Interesse Nacional", que começa a circular esta semana.

Pronto, estava aceso o estopim de uma das maiores e mais ácidas polêmicas de que se tem notícia no País ultimamente. Pouca gente (petistas "e tucanos principalmente", como se queixa o autor), pareceu interressada de verdade em seguir adiante na leitura do texto. Repita-se, escrito exemplar no estilo e conteúdo didaticamente elucidativo sobre métodos, estratégias e jeito de fazer oposição atualmente.

No Decálogo do Estadista, Ulysses Guimarães, o oráculo do antigo MDB, de cuja costela nasceu o PSDB de Fernando Henrique, ensina no sétimo mandamento: em política deve-se evitar ao máximo "proferir palavras irreparáveis".

Se o termo irreparável for escrito e divulgado para milhões, então, tudo fica muito mais complicado e avassalador, pois obriga, algumas vezes, a uma das tarefas mais inglórias da comunicação: "o autor precisar explicar no dia seguinte o que escreveu na véspera para seus leitores", como ensinava na redação do Jornal do Brasil e em seus livros preciosos de jornalismo, o saudoso editor nacional Juarez Bahia.

A Paciência é o sétimo mandamento do Decálogo do Estadista criado por Ulysses Guimarães. Parece ser esta a virtude que FHC precisará exercitar nos próximos dias - em lugar de tantas e tão dispensáveis explicações para alguém com sua biografia. Alem, é claro, de lamber as feridas, como o cão de São Roque ou de São Lázaro, para curar as chagas causadas principalmente pelo fogo amigo destes últimos dias.

Saber escutar é um dom político, pregava Ulysses: "A santa paciência de escutar! A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos 'que não o deixam ficar só e não lhe fazem companhia', como lamentava o filósofo Benedetto Croce".

Paciência, principalmente, para lidar com "homens-moluscos", que se moldam sofregamente à palma da mão dos poderosos da vez, aves de arribação de todas as tendências e partidos, que grassam como praga na política brasileira destes dias. A triste descoberta que FHC parece estar fazendo ao avaliar vários de seus companheiros, alguns meio trêfegos sempre, mas outros insuspeitos até aqui.

Agora, antes do ponto final, uma rápida passagem pela costa do Pacífico, por onde tem apanhado feio também nas últimas semanas o outro personagem desta crônica: Mario Vargas Llosa, doublé de fantástico escritor laureado com o mais recente Nobel de Literatura, e, ao mesmo tempo, apressado e agressivo guerrilheiro do liberalismo econômico e político na América Latina.

Derrotado como candidato na disputa presidencial que levou ao poder Alberto Fujimori e o Peru a uma das fases mais trágicas e deprimentes da historia, Vargas Llosa não teve a paciência necessária para deixar passar a mágoa pelo insucesso eleitoral. Retornou ao seu país - e isso é mais que justo e elogiável - para a campanha em curso, mesmo sem ser candidato. Veio com ganas de vingador de discursos ácido e palavras irreparáveis.

No primeiro turno, as eleições presidenciais tiveram um resultado inesperado para muita gente, mas principalmente para Vargas Llosa, considerado pela mídia, analistas e políticos aliados, como um dos maiores perdedores na etapa inicial. O Nobel votou declaradamente e fez campanha para Alejandro Toledo, o liberal ex-presidente que começou a campanha como o preferido em todas as pesquisas e acabou como quarto colocado na primeira volta eleitoral.

Vargas é flechado no Peru não por sua defesa do liberalismo, perfeitamente legítima, mas sim, apontam seus críticos, pelo fanatismo que respinga do seu discurso de palanque, o desprezo pelos adversários, e não raro pelos aliados também. "Se um mérito cabe atribuir ao liberalismo político - não ao econômico - é justamente a tolerância, virtude que Vargas Llosa parece desconhecer. Seu dogmatismo esquerdista da juventude, se transferiu para o outro extremo, sem sofrer alterações", escreveu o crítico e ex-diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Silvio Juan Maresca, em artigo publicado na prestigiosa revista semanal "Notícias".

Resultado: vão disputar o segundo turno o candidato das esquerdas Ollanta Humala (mais votado no primeiro turno) e a direitista Keiko Fugimori, filha do corrupto ex-presidente do Peru. Segundo Mario Vargas Llosa, "é como escolher entre o câncer e a AIDS".

Palavras irreparáveis do político. Que viva o escritor Vargas Llosa!

Após cem dias de Dilma no poder, oposição ainda busca discurso

Rafael Spuldar
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

No Senado, Aécio Neves faz discurso com críticas ao governo Dilma

Mais de cinco meses depois de ser derrotada nas urnas por Dilma Rousseff, que completa agora seus primeiros cem dias na Presidência, a oposição ainda demonstra dificuldades para encontrar um discurso e solucionar as suas divisões internas

"A oposição precisa ter uma estratégia comum, que ela agora não tem. Como ela não pode vencer votações, a saída é criar alguns constrangimentos para o governo e jogar para a plateia", diz o doutor em Ciência Política pela UFMG Carlos Ranulfo Melo.

Na eleição de outubro de 2010, os partidos de oposição viram suas bancadas se reduzirem tanto na Câmara dos Deputados como no Senado, ficando com apenas cerca de um terço das cadeiras em ambas as casas.

Já em seu primeiro grande teste político, em fevereiro, a base de apoio ao governo Dilma conseguiu impor, com votações expressivas, a aprovação do salário mínimo de R$ 545, tanto na Câmara como no Senado.

Na última quarta-feira, o senador e ex-governador de Minas Aécio Neves (PSDB) – apontado por analistas como uma das principais lideranças da oposição após a disputa eleitoral de 2010 – fez um discurso de cinco horas em plenário, criticando o governo Dilma.

No Senado, assistindo ao discurso, estava o ex-governador paulista e candidato derrotado do PSDB à Presidência, José Serra, citado por cientistas políticos como principal rival de Aécio Neves no PSDB na corrida ao Planalto em 2014.

"No PSDB, existem muitas lideranças disputando a hegemonia do partido, e elas se conflagram. Com isso, não se estabelece uma pauta comum", afirma o cientista político e professor da FGV Cláudio Couto.

"Serra tem a disputa com Aécio pela candidatura presidencial, mas também existe uma disputa em São Paulo entre ele e (o governador Geraldo) Alckmin, que voltou a ganhar importância", acrescenta Couto.

Kassab

Outro exemplo da divisão dos partidos opositores a Dilma foi a decisão do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de se desfiliar do DEM e fundar o Partido Social Democrático (PSD).

O novo partido já ganhou a adesão de outros integrantes do DEM, como o ex-candidato a vice-presidente Índio da Costa, a senadora Kátia Abreu (TO) e o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos.

Para Cláudio Couto, o PSD surge como um partido sem ideologia clara e disposto a não participar da oposição, o que seria exemplo tanto de uma crise ideológica da oposição como de uma divisão dos partidos. "O PSDB não se une, e o DEM se esfacela", afirma.

O líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias, nega que a saída de Kassab do DEM represente uma divisão dos partidos de oposição. O senador afirma que a relevância política deste fato ainda é desconhecida.

"Kassab não tem luz própria ainda, não tem visibilidade nacional", disse o senador à BBC Brasil. "(O PSD) não será um partido de conteúdo programático, não creio que seja capaz de empolgar alguém."

Em termos de propostas, Carlos Ranulfo Melo vê uma homogeneidade entre governo e oposição. O analista credita isso, em parte, a uma "crise ideológica da direita", que teve, segundo ele, seu espaço reduzido no cenário político.

"PSDB e PT disputam o centro do sistema partidário, disputam o mesmo lugar, separados apenas por algumas nuances: enquanto o PT é mais social, o PSDB aposta na eficiência."

"Lula roubou um pouco daquilo que seria o nicho preferencial da oposição, quando optou por manter a mesma política econômica de Fernando Henrique Cardoso", diz Cláudio Couto. "Sem este nicho específico, a oposição fica em uma 'sinuca de bico'."

Comunicação e desgaste

O líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), vê na comunicação o grande problema da oposição. Para ele, é preciso que os políticos parem de "falar em códigos" e busquem o contato direto com a população.

"O eleitor está esperando de nós algo que seja mais palpável, que ele se sinta representado por nós nas ansiedades do dia-a-dia", afirmou Caiado à BBC Brasil.

Além disso, o deputado defende que a oposição construa uma militância forte, a exemplo do que fez o PT durante a sua trajetória quando estava fora do poder.

Por sua vez, Alvaro Dias aposta no desgaste dos três mandatos consecutivos do PT para que a oposição reconquiste o espaço perdido.

"Pode acontecer um cansaço natural, uma fadiga natural de quem está no poder já há oito anos, e que ficará mais quatro", afirma Dias.

"O modelo é realmente complicado de administrar, porque (a base de apoio de Dilma) é uma composição heterogênea e muito ampla. Certamente turbulências virão", diz o senador.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/04/110407_dilma_oposicao_rp.shtml

Após cem dias de Dilma no poder, oposição ainda busca discurso

Rafael Spuldar
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

No Senado, Aécio Neves faz discurso com críticas ao governo Dilma

Mais de cinco meses depois de ser derrotada nas urnas por Dilma Rousseff, que completa agora seus primeiros cem dias na Presidência, a oposição ainda demonstra dificuldades para encontrar um discurso e solucionar as suas divisões internas

"A oposição precisa ter uma estratégia comum, que ela agora não tem. Como ela não pode vencer votações, a saída é criar alguns constrangimentos para o governo e jogar para a plateia", diz o doutor em Ciência Política pela UFMG Carlos Ranulfo Melo.

Na eleição de outubro de 2010, os partidos de oposição viram suas bancadas se reduzirem tanto na Câmara dos Deputados como no Senado, ficando com apenas cerca de um terço das cadeiras em ambas as casas.

Já em seu primeiro grande teste político, em fevereiro, a base de apoio ao governo Dilma conseguiu impor, com votações expressivas, a aprovação do salário mínimo de R$ 545, tanto na Câmara como no Senado.

Na última quarta-feira, o senador e ex-governador de Minas Aécio Neves (PSDB) – apontado por analistas como uma das principais lideranças da oposição após a disputa eleitoral de 2010 – fez um discurso de cinco horas em plenário, criticando o governo Dilma.

No Senado, assistindo ao discurso, estava o ex-governador paulista e candidato derrotado do PSDB à Presidência, José Serra, citado por cientistas políticos como principal rival de Aécio Neves no PSDB na corrida ao Planalto em 2014.

"No PSDB, existem muitas lideranças disputando a hegemonia do partido, e elas se conflagram. Com isso, não se estabelece uma pauta comum", afirma o cientista político e professor da FGV Cláudio Couto.

"Serra tem a disputa com Aécio pela candidatura presidencial, mas também existe uma disputa em São Paulo entre ele e (o governador Geraldo) Alckmin, que voltou a ganhar importância", acrescenta Couto.

Kassab

Outro exemplo da divisão dos partidos opositores a Dilma foi a decisão do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de se desfiliar do DEM e fundar o Partido Social Democrático (PSD).

O novo partido já ganhou a adesão de outros integrantes do DEM, como o ex-candidato a vice-presidente Índio da Costa, a senadora Kátia Abreu (TO) e o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos.

Para Cláudio Couto, o PSD surge como um partido sem ideologia clara e disposto a não participar da oposição, o que seria exemplo tanto de uma crise ideológica da oposição como de uma divisão dos partidos. "O PSDB não se une, e o DEM se esfacela", afirma.

O líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias, nega que a saída de Kassab do DEM represente uma divisão dos partidos de oposição. O senador afirma que a relevância política deste fato ainda é desconhecida.

"Kassab não tem luz própria ainda, não tem visibilidade nacional", disse o senador à BBC Brasil. "(O PSD) não será um partido de conteúdo programático, não creio que seja capaz de empolgar alguém."

Em termos de propostas, Carlos Ranulfo Melo vê uma homogeneidade entre governo e oposição. O analista credita isso, em parte, a uma "crise ideológica da direita", que teve, segundo ele, seu espaço reduzido no cenário político.

"PSDB e PT disputam o centro do sistema partidário, disputam o mesmo lugar, separados apenas por algumas nuances: enquanto o PT é mais social, o PSDB aposta na eficiência."

"Lula roubou um pouco daquilo que seria o nicho preferencial da oposição, quando optou por manter a mesma política econômica de Fernando Henrique Cardoso", diz Cláudio Couto. "Sem este nicho específico, a oposição fica em uma 'sinuca de bico'."

Comunicação e desgaste

O líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), vê na comunicação o grande problema da oposição. Para ele, é preciso que os políticos parem de "falar em códigos" e busquem o contato direto com a população.

"O eleitor está esperando de nós algo que seja mais palpável, que ele se sinta representado por nós nas ansiedades do dia-a-dia", afirmou Caiado à BBC Brasil.

Além disso, o deputado defende que a oposição construa uma militância forte, a exemplo do que fez o PT durante a sua trajetória quando estava fora do poder.

Por sua vez, Alvaro Dias aposta no desgaste dos três mandatos consecutivos do PT para que a oposição reconquiste o espaço perdido.

"Pode acontecer um cansaço natural, uma fadiga natural de quem está no poder já há oito anos, e que ficará mais quatro", afirma Dias.

"O modelo é realmente complicado de administrar, porque (a base de apoio de Dilma) é uma composição heterogênea e muito ampla. Certamente turbulências virão", diz o senador.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/04/110407_dilma_oposicao_rp.shtml