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09 junho 2011

Cenário de deserto, mar e diversidade animal dividem a atenção dos turistas em Paracas, no Peru

MARIA EMÍLIA COELHO
Colaboração para o UOL Viagem *

Paraca, palavra do idioma quíchua que significa chuva de areia. Na desértica costa do Pacífico, um lugar chamado Paracas sopra forte suas areias. Mas depois da nebulosa tempestade, vem o paraíso. Praias, ilhas rochosas e imensas falésias são habitat de diversas aves, lobos marinhos, pinguins e golfinhos. A baía é um destino sem igual no Peru, e atrai o viajante que quer ver a vida que brota do encontro do mar com o deserto.

Foto 18 de 40 - A 'Catedral', um monumento natural de milhões de anos, perdeu parte de sua estrutura depois do terremoto que atingiu a costa sul do Peru em 2007 Christian Quispe/UOL

A 260 km ao sul de Lima, a Reserva Nacional de Paracas, fundada em 1975, é a única Área Natural Protegida peruana que conserva uma amostra de um dos mais importantes processos oceanográficos da Terra. A temperatura dessa parte do litoral do Pacífico é mais baixa por causa da corrente de Humboldt, aquela que leva águas frias da região antártica para a equatorial. Nesse caminho, Humboldt também arrasta muito plâncton, a base da cadeia alimentar dos ecossistemas marino-costeiros, tornando o mar de Paracas um dos mais ricos e produtivos do mundo.

A excepcional diversidade biológica dos 335 mil hectares da Reserva (70% marinha e 30% terrestre) se revela em números. São mais de 1.500 espécies registradas, entre algas, plantas, anelídeos, moluscos, artrópodes, peixes, répteis, aves e mamíferos. Muitas delas estão em perigo de extinção, como o pinguim de Humboldt, o gato andino e a gigante tartaruga-de-couro, que visita Paracas desde as Ilhas Galápagos e outros mares da América Central.

A maioria dos visitantes que chega à baía quer ver os lobos marinhos. Nos arredores da Reserva, as Ilhas Ballestas são a excursão mais procurada, pois é lá que vivem milhares dos mais de 50 mil lobos do lugar. Barcos lotados de estrangeiros partem todas as manhãs de El Chaco, a zona urbana de Paracas, rumo às ilhas rochosas. Quem garante lugar, não se arrepende. Ficar a poucos metros de um grupo de lobos é um momento singular de contato com a natureza selvagem.

Na viagem de barco até Ballestas, uma figura de 120 metros cravada em uma montanha arenosa chama a atenção dos tripulantes. É parada obrigatória para fotos. A origem do geoglífo, chamado El Candelabro, ainda é um mistério entre os arqueólogos. A figura tem similaridade com as Linhas de Nazca, mas supostamente origem diferente. Seriam a ‘‘representação estilizada do cacto São Pedro, bebida alucinógena usada em rituais de sociedades pré-incas, ou piratas do século 17 que queriam indicar um tesouro. Outra teoria afirma que se trata de um símbolo secreto da maçonaria feito pelos lutadores da Independência do Peru’’, explica o guia do passeio.

As agências também oferecem um tour pelas atrações que estão dentro da Reserva. A mais famosa é a Catedral, uma formação rochosa modelada durante 84 milhões de anos pela ação do vento e do mar. Parte do arco e da abóbada, que serviam de refúgio de aves migratórias e lobos marinhos, foi destruída pelo violento terremoto que afetou a zona de Pisco, onde está localizada a Reserva, em agosto de 2007. Felizmente, a linda paisagem e parte do monumento natural continuaram intactas.

Se você for

Ilhas Ballestas
Paracas Overland
Tel: 51 56 533855
www.paracasoverland.com.pe
Kitesurf
Peru Kite
Tel: 51 1 994567802
www.perukite.com

Hotéis em Chaco


Posada del Emancipador
Av. Paracas, 25, El Chaco
Tel: 51 1 998293029
www.posadadelemancipador.com

El Condor
Lote 4, Urb. Bahia Santo Domingo, Paracas
Te: 51 1 998293029
www.hotelelcondor.com


Na praia de Lagunilla estão concentrados os barcos dos pescadores, e também os restaurantes para amenizar um pouco o sol que frita no deserto. O almoço do turista dá direito a banho de mar, cerveja gelada e ceviche, o tradicional prato da culinária peruana, preparado com o peixe pescado na hora, suco de limão, alho e aji. Para quem quiser passar a noite dentro da Reserva, a praia de Yumaque, com suas imensas falésias e seu espetacular fim de tarde, é o melhor lugar para acampar.

Na década de 1920, Julio C. Tello, o pai da arqueologia peruana, passou anos investigando a zona e descobriu a antiga civilização Paracas, formada no século 500 a.C. Em suas escavações, o arqueólogo encontrou uma necrópole com mais de 400 múmias, além de um impressionante legado têxtil. ‘‘Os desenhos impressos nos mantos funerários eram uma forma de escritura dessa cultura, uma comunicação dos homens com seus deuses’’, ensina José Quispe, pescador, guia turístico, e legendário narrador de contos da baía.

Paracas também é lembrada por ter sido o lugar onde desembarcou o revolucionário comandante argentino José de San Martín. Em sua missão de tornar independentes as colônias da Coroa espanhola, o general aporta na Baía de Paracas em 1820, estabelecendo o quartel da sua histórica Expedição Libertadora.

Hoje, os arredores da Reserva servem de balneário de verão de peruanos endinheirados, além de destino turístico daqueles que buscam natureza aliada a esporte e aventura. Pelas ruas de Chaco, onde estão os hotéis e restaurantes da cidade, há agências que promovem uma excursão para quem quer desbravar dunas de areia com um buggy e uma prancha de sanboard.

Para os esportistas do mar e do vento, Paracas é perfeita. A baía está na lista dos melhores lugares do mundo para a prática do kitesurf, com ventanias em quase todos os dias do ano. No final da praia de El Chaco, já quase no limite com a Reserva, as velas dos surfistas fazem pontos coloridos na paisagem ocre e azul turquesa. Um verdadeiro convite para esquecer um pouco do verde da costa tropical brasileira.

*A jornalista Maria Emília Coelho viajou a Paracas a convite das agências Paracas Overland e Adrena Arena e do Posada del Emancipador.

http://viagem.uol.com.br/ultnot/2011/06/08/cenario-de-deserto-mar-e-diversidade-marinha-dividem-a-atencao-dos-turistas-em-paracas-no-peru.jhtm

Cenário de deserto, mar e diversidade animal dividem a atenção dos turistas em Paracas, no Peru

MARIA EMÍLIA COELHO
Colaboração para o UOL Viagem *

Paraca, palavra do idioma quíchua que significa chuva de areia. Na desértica costa do Pacífico, um lugar chamado Paracas sopra forte suas areias. Mas depois da nebulosa tempestade, vem o paraíso. Praias, ilhas rochosas e imensas falésias são habitat de diversas aves, lobos marinhos, pinguins e golfinhos. A baía é um destino sem igual no Peru, e atrai o viajante que quer ver a vida que brota do encontro do mar com o deserto.

Paracas

Foto 18 de 40 - A 'Catedral', um monumento natural de milhões de anos, perdeu parte de sua estrutura depois do terremoto que atingiu a costa sul do Peru em 2007 Christian Quispe/UOL

A 260 km ao sul de Lima, a Reserva Nacional de Paracas, fundada em 1975, é a única Área Natural Protegida peruana que conserva uma amostra de um dos mais importantes processos oceanográficos da Terra. A temperatura dessa parte do litoral do Pacífico é mais baixa por causa da corrente de Humboldt, aquela que leva águas frias da região antártica para a equatorial. Nesse caminho, Humboldt também arrasta muito plâncton, a base da cadeia alimentar dos ecossistemas marino-costeiros, tornando o mar de Paracas um dos mais ricos e produtivos do mundo.

A excepcional diversidade biológica dos 335 mil hectares da Reserva (70% marinha e 30% terrestre) se revela em números. São mais de 1.500 espécies registradas, entre algas, plantas, anelídeos, moluscos, artrópodes, peixes, répteis, aves e mamíferos. Muitas delas estão em perigo de extinção, como o pinguim de Humboldt, o gato andino e a gigante tartaruga-de-couro, que visita Paracas desde as Ilhas Galápagos e outros mares da América Central.

A maioria dos visitantes que chega à baía quer ver os lobos marinhos. Nos arredores da Reserva, as Ilhas Ballestas são a excursão mais procurada, pois é lá que vivem milhares dos mais de 50 mil lobos do lugar. Barcos lotados de estrangeiros partem todas as manhãs de El Chaco, a zona urbana de Paracas, rumo às ilhas rochosas. Quem garante lugar, não se arrepende. Ficar a poucos metros de um grupo de lobos é um momento singular de contato com a natureza selvagem.

Na viagem de barco até Ballestas, uma figura de 120 metros cravada em uma montanha arenosa chama a atenção dos tripulantes. É parada obrigatória para fotos. A origem do geoglífo, chamado El Candelabro, ainda é um mistério entre os arqueólogos. A figura tem similaridade com as Linhas de Nazca, mas supostamente origem diferente. Seriam a ‘‘representação estilizada do cacto São Pedro, bebida alucinógena usada em rituais de sociedades pré-incas, ou piratas do século 17 que queriam indicar um tesouro. Outra teoria afirma que se trata de um símbolo secreto da maçonaria feito pelos lutadores da Independência do Peru’’, explica o guia do passeio.

As agências também oferecem um tour pelas atrações que estão dentro da Reserva. A mais famosa é a Catedral, uma formação rochosa modelada durante 84 milhões de anos pela ação do vento e do mar. Parte do arco e da abóbada, que serviam de refúgio de aves migratórias e lobos marinhos, foi destruída pelo violento terremoto que afetou a zona de Pisco, onde está localizada a Reserva, em agosto de 2007. Felizmente, a linda paisagem e parte do monumento natural continuaram intactas.

Se você for

Ilhas Ballestas
Paracas Overland
Tel: 51 56 533855
www.paracasoverland.com.pe
Kitesurf
Peru Kite
Tel: 51 1 994567802
www.perukite.com

Hotéis em Chaco


Posada del Emancipador
Av. Paracas, 25, El Chaco
Tel: 51 1 998293029
www.posadadelemancipador.com

El Condor
Lote 4, Urb. Bahia Santo Domingo, Paracas
Te: 51 1 998293029
www.hotelelcondor.com


Na praia de Lagunilla estão concentrados os barcos dos pescadores, e também os restaurantes para amenizar um pouco o sol que frita no deserto. O almoço do turista dá direito a banho de mar, cerveja gelada e ceviche, o tradicional prato da culinária peruana, preparado com o peixe pescado na hora, suco de limão, alho e aji. Para quem quiser passar a noite dentro da Reserva, a praia de Yumaque, com suas imensas falésias e seu espetacular fim de tarde, é o melhor lugar para acampar.

Na década de 1920, Julio C. Tello, o pai da arqueologia peruana, passou anos investigando a zona e descobriu a antiga civilização Paracas, formada no século 500 a.C. Em suas escavações, o arqueólogo encontrou uma necrópole com mais de 400 múmias, além de um impressionante legado têxtil. ‘‘Os desenhos impressos nos mantos funerários eram uma forma de escritura dessa cultura, uma comunicação dos homens com seus deuses’’, ensina José Quispe, pescador, guia turístico, e legendário narrador de contos da baía.

Paracas também é lembrada por ter sido o lugar onde desembarcou o revolucionário comandante argentino José de San Martín. Em sua missão de tornar independentes as colônias da Coroa espanhola, o general aporta na Baía de Paracas em 1820, estabelecendo o quartel da sua histórica Expedição Libertadora.

Hoje, os arredores da Reserva servem de balneário de verão de peruanos endinheirados, além de destino turístico daqueles que buscam natureza aliada a esporte e aventura. Pelas ruas de Chaco, onde estão os hotéis e restaurantes da cidade, há agências que promovem uma excursão para quem quer desbravar dunas de areia com um buggy e uma prancha de sanboard.

Para os esportistas do mar e do vento, Paracas é perfeita. A baía está na lista dos melhores lugares do mundo para a prática do kitesurf, com ventanias em quase todos os dias do ano. No final da praia de El Chaco, já quase no limite com a Reserva, as velas dos surfistas fazem pontos coloridos na paisagem ocre e azul turquesa. Um verdadeiro convite para esquecer um pouco do verde da costa tropical brasileira.

*A jornalista Maria Emília Coelho viajou a Paracas a convite das agências Paracas Overland e Adrena Arena e do Posada del Emancipador.

http://viagem.uol.com.br/ultnot/2011/06/08/cenario-de-deserto-mar-e-diversidade-marinha-dividem-a-atencao-dos-turistas-em-paracas-no-peru.jhtm

16 abril 2011

Llosa e FHC: sob fogo cerrado

Vitor Hugo Soares
De Salvador (BA)


Artigo de Fernando Henrique Cardoso sobre o papel da oposição causou polêmica entre tucanos e petistas (Foto: Ale Cabral/Futura Press)

Crivado de flechas impiedosamente - como o São Sebastião da música de Chico Buarque -, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso anda atônito e desolado. Sobre ele desabam saraivadas de críticas, partidas indistintamente de adversários e aliados. Entre estes (o que mais dói como dá para sentir nas reações de FHC) combatentes da primeira hora do PSDB - políticos e intelectuais de mais rica plumagem no tucanato brasileiro.

O mais espantoso: o fogo cerrado começou imediatamente depois do presidente honorário do PSDB produzir - em tempo de muita intriga e pensamento ralo e rasteiro - um dos mais brilhantes, completos e elevados textos políticos em forma e conteúdo sobre os descaminhos e equívocos das oposições no Brasil.

Aparentemente, uma única frase, que inclui a palavra "povão", fez explodir toda a arenga: "Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes, e pouco informadas, falarão sozinhos", escreveu Fernando Henrique Cardoso no ensaio "O papel da oposição", produzido para a revista "Interesse Nacional", que começa a circular esta semana.

Pronto, estava aceso o estopim de uma das maiores e mais ácidas polêmicas de que se tem notícia no País ultimamente. Pouca gente (petistas "e tucanos principalmente", como se queixa o autor), pareceu interressada de verdade em seguir adiante na leitura do texto. Repita-se, escrito exemplar no estilo e conteúdo didaticamente elucidativo sobre métodos, estratégias e jeito de fazer oposição atualmente.

No Decálogo do Estadista, Ulysses Guimarães, o oráculo do antigo MDB, de cuja costela nasceu o PSDB de Fernando Henrique, ensina no sétimo mandamento: em política deve-se evitar ao máximo "proferir palavras irreparáveis".

Se o termo irreparável for escrito e divulgado para milhões, então, tudo fica muito mais complicado e avassalador, pois obriga, algumas vezes, a uma das tarefas mais inglórias da comunicação: "o autor precisar explicar no dia seguinte o que escreveu na véspera para seus leitores", como ensinava na redação do Jornal do Brasil e em seus livros preciosos de jornalismo, o saudoso editor nacional Juarez Bahia.

A Paciência é o sétimo mandamento do Decálogo do Estadista criado por Ulysses Guimarães. Parece ser esta a virtude que FHC precisará exercitar nos próximos dias - em lugar de tantas e tão dispensáveis explicações para alguém com sua biografia. Alem, é claro, de lamber as feridas, como o cão de São Roque ou de São Lázaro, para curar as chagas causadas principalmente pelo fogo amigo destes últimos dias.

Saber escutar é um dom político, pregava Ulysses: "A santa paciência de escutar! A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos 'que não o deixam ficar só e não lhe fazem companhia', como lamentava o filósofo Benedetto Croce".

Paciência, principalmente, para lidar com "homens-moluscos", que se moldam sofregamente à palma da mão dos poderosos da vez, aves de arribação de todas as tendências e partidos, que grassam como praga na política brasileira destes dias. A triste descoberta que FHC parece estar fazendo ao avaliar vários de seus companheiros, alguns meio trêfegos sempre, mas outros insuspeitos até aqui.

Agora, antes do ponto final, uma rápida passagem pela costa do Pacífico, por onde tem apanhado feio também nas últimas semanas o outro personagem desta crônica: Mario Vargas Llosa, doublé de fantástico escritor laureado com o mais recente Nobel de Literatura, e, ao mesmo tempo, apressado e agressivo guerrilheiro do liberalismo econômico e político na América Latina.

Derrotado como candidato na disputa presidencial que levou ao poder Alberto Fujimori e o Peru a uma das fases mais trágicas e deprimentes da historia, Vargas Llosa não teve a paciência necessária para deixar passar a mágoa pelo insucesso eleitoral. Retornou ao seu país - e isso é mais que justo e elogiável - para a campanha em curso, mesmo sem ser candidato. Veio com ganas de vingador de discursos ácido e palavras irreparáveis.

No primeiro turno, as eleições presidenciais tiveram um resultado inesperado para muita gente, mas principalmente para Vargas Llosa, considerado pela mídia, analistas e políticos aliados, como um dos maiores perdedores na etapa inicial. O Nobel votou declaradamente e fez campanha para Alejandro Toledo, o liberal ex-presidente que começou a campanha como o preferido em todas as pesquisas e acabou como quarto colocado na primeira volta eleitoral.

Vargas é flechado no Peru não por sua defesa do liberalismo, perfeitamente legítima, mas sim, apontam seus críticos, pelo fanatismo que respinga do seu discurso de palanque, o desprezo pelos adversários, e não raro pelos aliados também. "Se um mérito cabe atribuir ao liberalismo político - não ao econômico - é justamente a tolerância, virtude que Vargas Llosa parece desconhecer. Seu dogmatismo esquerdista da juventude, se transferiu para o outro extremo, sem sofrer alterações", escreveu o crítico e ex-diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Silvio Juan Maresca, em artigo publicado na prestigiosa revista semanal "Notícias".

Resultado: vão disputar o segundo turno o candidato das esquerdas Ollanta Humala (mais votado no primeiro turno) e a direitista Keiko Fugimori, filha do corrupto ex-presidente do Peru. Segundo Mario Vargas Llosa, "é como escolher entre o câncer e a AIDS".

Palavras irreparáveis do político. Que viva o escritor Vargas Llosa!