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29 outubro 2011

Relação Brasil-África pode religar os 2 lados do Atlântico, diz Banco Mundial


Atualizado em 19 de outubro, 2011 - 06:09 (Brasília) 08:09 GMT
Explosão de mina de carvão em Moatize, Moçambique (Foto: Agência Vale)

Relatório fala de cooperação entre Brasil e África em setores como energia, agricultura e saúde

Outrora pedaços de um único território, Brasil e África estão desenvolvendo um modelo de relações que tem o potencial de religar as duas margens do Atlântico Sul, segundo um relatório do Banco Mundial obtido pela BBC Brasil.

O documento, cuja versão inicial deve ser divulgada no fim deste mês, analisa a intensificação das relações entre Brasil e África a partir de 2003, quando o governo Luiz Inácio Lula da Silva elegeu o continente como uma das prioridades de sua política externa, parte da estratégia de ampliar a influência brasileira no mundo.

"Há cerca de 200 milhões de anos, África e Brasil integravam o continente de Gondwana. Hoje, ambos estão restabelecendo conexões que podem criar impactos significativos na prosperidade e no desenvolvimento dos dois", afirma o Banco Mundial.

Segundo o relatório, um dos principais aspectos dessa aproximação foi o incremento no comércio entre Brasil e países africanos, que quintuplicou entre 2000 e 2010, passando de US$ 4 bilhões para US$ 20 bilhões.

O banco salienta o papel do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) nessa relação: em 2008, o banco emprestou US$ 477 milhões (R$ 838 milhões) a empresas brasileiras com operações na África; em 2010, o valor subiu para US$ 649 milhões (R$ 1,14 bilhão).

Essas companhias, afirma o relatório, estão presentes em quase todo o continente e atuam sobretudo nos setores de infraestrutura, energia e mineração.

Embora a operação dessas empresas na África tenha se tornado mais visível nos últimos anos, o documento diz que elas começaram a atuar no continente nos anos 1980, o que hoje as deixa em posição privilegiada.

Outro aspecto destacado pelo Banco Mundial é que as companhias brasileiras tendem a contratar trabalhadores locais em seus projetos, favorecendo sua capacitação profissional. Essa postura contrasta com a da China, que nos últimos anos tornou-se principal parceira econômica de muitos países africanos, mas às vezes é contestada por empregar majoritariamente operários chineses em seus empreendimentos no continente.

O Banco Mundial também cita o papel desempenhado por pequenas e médias empresas brasileiras na África. Segundo o relatório, numa feira de negócios em São Paulo em abril de 2010, companhias brasileiras e africanas fecharam acordos de US$ 25 milhões nos setores de bebidas, alimentos, roupas, calçados, automóveis, eletrônicos, construção e cosméticos.

Programas de cooperação

Além da aproximação comercial, o relatório trata da crescente cooperação entre Brasil e nações africanas nos setores de agricultura, saúde, energia, proteção social e capacitação profissional.

O banco afirma que, graças a características geofísicas comuns (como clima e tipos de solo), a tecnologia brasileira costuma se adaptar a muitas regiões africanas. Diz ainda que sucessos recentes do Brasil nos campos social e econômico atraíram a atenção de muitos países na África, além dos lusófonos com quem o Brasil tem conexões históricas.

O relatório cita parcerias entre os governos do Brasil e de países africanos para o tratamento de HIV/Aids, malária e anemia falciforme e diz que a experiência brasileira em proteção social está sendo adaptada e replicada no Quênia, Senegal e em Angola.

Ainda assim, afirma que, como esses projetos começaram há menos de dez anos, é difícil mensurar seus resultados.

"No entanto, em muitos casos, resultados iniciais têm sido positivos, destacando o potencial para uma relação mais sólida e de longo prazo", conclui o Banco Mundial.

28 outubro 2011

Ofertas da 25 de Março sem aperto, filas e trânsito caótico

Site “25 Aqui” anuncia cinco itens diferentes de lojas da região por semana, mas conforto tem um custo: produtos podem custar até 15% mais caro

Bruna Bessi, iG São Paulo


A 25 de Março, uma das mais movimentadas ruas de comércio popular do País, acaba de ganhar uma vitrine na internet. Sem filas, tumultos ou problemas para estacionar, o site “25 Aqui” promete oferecer aos clientes as melhores ofertas do tradicional ponto de comércio paulista. Semanalmente, cinco produtos diferentes são colocados à venda para clientes de qualquer lugar do Brasil. No “25 Aqui” é possível adquirir eletroeletrônicos, bijuterias e bolsas encontrados nas lojas da região.


Desenvolvido pela Ziaga Marketing, o site foi idealizado em junho para vender produtos de apenas um dos shoppings da famosa rua. Mas, o potencial do comércio chamou a atenção dos empresários, que resolveram ampliar a abrangência do empreendimento. Para ganhar escala e aumentar a competitividade, eles procuraram fornecedores do comércio da 25 e lançaram este mês o site, no qual foram investidos R$ 150 mil. Um dos criadores do projeto, Gustavo Veríssimo explica que o site não tem mais ofertas porque a 25 de Março tem muito giro. “Correríamos o risco de anunciar produtos sem estoque”, diz.


A escolha das ofertas anunciadas é feita por três funcionários da Ziaga que percorrem o comércio local para descobrir novidades e produtos mais vendidos. Veríssimo lembra que apenas roupas ainda não são comercializadas porque a falta de padronização de números atrapalha as vendas. “Apesar disso, vamos colocar jeans no site daqui a algumas semanas para fazer um teste. É sempre bom lembrar que os produtos têm nota fiscal e garantia. Nada é falsificado”, diz.

Mas, o conforto e a praticidade têm um custo. Alguns itens são oferecidos pelo mesmo preço das lojas. Mas, outros chegam a custar até 15% mais caro. “O preço varia porque existe a cobrança de frete e, no local, os comerciantes fornecem descontos”, diz Veríssimo.

Ainda assim, há quem prefira fazer compras pelo site. Frequentadora assídua da região da 25 de Março, a empresária Carla Queiroz aprovou as ofertas do “25 Aqui” e o conforto de comprar sem sair de casa. “A falta de tempo não me permitia aproveitar os preços das lojas tanto quando desejava. Com o site ficou mais fácil. Já comprei uma bolsa, paguei valor semelhante ao de uma loja da 25 e recebi o produto dentro do prazo”, afirma.


Desde sua criação, o site já teve mais de 100 mil acessos e a expectativa de Veríssimo é que esse número triplique em novembro. Diariamente são registradas, em média, 20 vendas, com tíquete médio de R$ 89. Bolsas e eletrônicos lideram o ranking dos itens mais vendidos pelo site que recebe encomendas de diversas regiões do País. “Temos muitos clientes de regiões como Nordeste e Sul e os resultados do “25 Aqui” já nos levam a planejar outros sites para mercados como Brás e Santa Efigênia”, diz Veríssimo.

26 agosto 2011

Derivativo da China?

O Estado de S.Paulo
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,derivativo-da-china,763845,0.htm

A economia brasileira depende cada vez mais da parceria comercial com a China e das políticas formuladas em Pequim. Mais que isso: o comércio bilateral segue o velho padrão Norte-Sul, com o lado mais fraco fornecendo matérias-primas em troca de produtos manufaturados. Essa descrição, familiar aos brasileiros atentos à evolução da economia global, já é assunto de comentários e de análises no mercado financeiro. A relação entre os dois países - com referência ao padrão do comércio - foi tema de um relatório do Banco Nomura, de Nova York, ligado a um dos maiores conglomerados financeiros do mundo, com sede no Japão. Também nesta semana, um artigo apresentado no site da Forbes foi aberto com a sugestiva pergunta: é o Brasil um derivativo da China? Preços de derivativos, lembrou o autor, dependem do valor de outro ativo - neste caso, a economia chinesa. Se essa economia fraquejar e seu apetite por matérias-primas diminuir, quais serão as consequências para os brasileiros?


A China é hoje a principal fonte de receita comercial para o Brasil. No ano passado, o País ganhou US$ 30,8 bilhões com as vendas ao mercado chinês, 15,2% do valor total das exportações. O comércio com os Estados Unidos, em outros tempos o comprador mais importante, proporcionou US$ 19,5 bilhões, 9,6% do total faturado. A China ficou em segundo lugar como fornecedor do mercado brasileiro, com 14,1% do valor vendido ao País. Os Estados Unidos mantiveram o primeiro lugar, com participação de 15%.

Mas a diferença entre o comércio com os Estados Unidos e o intercâmbio com a China vai muito além dos valores totais. A relação com os chineses de fato reproduz o padrão Norte-Sul, embora os dois países sejam classificados como emergentes.

A China vende ao Brasil quase exclusivamente produtos manufaturados. Parte das vendas é de peças e componentes para a indústria brasileira. Isso resulta em deslocamento de empresas nacionais, incapazes de competir com produtores chineses favorecidos pelo câmbio desvalorizado e por mecanismos obscuros de formação de preços.

Em contrapartida, as vendas brasileiras à China são, predominantemente, de produtos básicos. Em 2010, apenas 4,5% das exportações brasileiras para o mercado chinês corresponderam a bens manufaturados. Somados os bens intermediários, o total chegou a 16,3%.

O comércio com os Estados Unidos é muito mais diversificado. No ano passado, 51,6% das exportações brasileiras para o mercado americano foram de produtos manufaturados. Com os bens intermediários, o total dos industrializados alcançou 68,1%. O intercâmbio do Brasil com a maior e mais desenvolvida economia do mundo há muito tempo deixou de ser regido pelo tradicional padrão de bens primários em troca de bens manufaturados. A relação Norte-Sul, de estilo quase colonial, ocorre no comércio com a China, país emergente escolhido como "parceiro estratégico".

Também o comércio com a União Europeia é mais equilibrado quanto à composição. Em 2010, as vendas de manufaturados ao mercado europeu equivaleram a 35,7% das exportações brasileiras para o bloco. A parcela de industrializados (com inclusão dos semielaborados) chegou a 40,6%. A União Europeia absorveu 21,4% das vendas brasileiras. A participação da América Latina e do Caribe foi maior - 23,8%, também com alta proporção de manufaturados (78,4%) e industrializados (82,1%).

A diversificação de mercados, uma tendência tradicional do comércio brasileiro, é uma boa política. A ampliação do comércio com a China e com outros parceiros do Oriente foi um desdobramento dessa política. Mas esse acerto foi acompanhado de um erro grave: a partir de 2003, o governo desperdiçou as possibilidades de acordos com os Estados Unidos e com a Europa - no primeiro caso, por miopia ideológica. Isso deixou espaço à China e a outras economias empenhadas em conquistar mercados por todos os meios. Com isso, o Brasil se tornou mais dependente - e de forma perigosa - da política de Pequim, da prosperidade chinesa e dos preços das commodities. Todos esses fatores estão fora do controle dos brasileiros.


09 abril 2011

A real ameaça chinesa

- O Estado de S.Paulo

Se, para alguns setores produtivos, falar em desindustrialização ainda soa como exagero, para outros, a suspensão da produção em razão da incapacidade de competir com fornecedores estrangeiros deixou de ser simples ameaça. Em alguns segmentos da indústria, mais de 80% das empresas deixaram de fabricar e se tornaram importadoras, pois tudo o que vendem aqui é comprado lá fora. É mais barato importar, sobretudo produtos fabricados na China, do que continuar produzindo.

É rápido o avanço dos produtos importados no mercado brasileiro. Provêm do exterior de 20% a 25% dos bens acabados, matérias-primas e produtos intermediários consumidos no País. Em 2010, o Brasil foi o país que mais aumentou as importações. Em volume, as importações cresceram mais do que as exportações, mas, mesmo assim, o País registrou um saldo comercial expressivo por causa dos preços recordes dos produtos agrícolas e dos minérios.

Um país exportador tem sido fonte de problemas crescentes para o setor industrial brasileiro - a China. Ela tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil. A corrente de comércio entre os dois países alcançou US$ 55 bilhões em 2010, tendo o Brasil conseguido um saldo de US$ 5 bilhões, graças às exportações de US$ 30 bilhões, asseguradas pela demanda chinesa continuamente crescente de bens primários e do alto preço desses itens.

Mesmo assim, a entrada de produtos industrializados chineses no mercado brasileiro aumenta velozmente, tornando feroz a competição aqui dentro. Para algumas empresas, a disputa já provoca grandes estragos. Reportagem do jornal Valor, publicada terça-feira, deixa claro que, em alguns segmentos, como válvulas industriais, elevadores e ferramentas, as empresas deixaram de produzir e passaram a importar, o que as levou a reduzir o número de empregados.

Em alguns casos, como o de válvulas padronizadas e de baixo valor agregado, o preço do produto chinês colocado no Brasil é 60% menor do que o do similar brasileiro. "Com essa diferença de preços, as empresas brasileiras não conseguem concorrer", diz o industrial Pedro Lucio, presidente da câmara setorial de válvulas industriais da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

O problema é o mesmo para os fabricantes de ferramentas simples, como martelos, chaves de fenda e alicates. Nesses casos, o produto chinês é de 50% a 70% mais barato do que o brasileiro. Há três anos, os produtos importados correspondiam a 10% do mercado; hoje, já são quase um terço, e a maioria vem da China.

São conhecidas as principais causas da perda de competitividade do produto brasileiro diante do chinês. A taxa de juros no Brasil é uma das mais altas do mundo, e na China ela é negativa. Aqui, a carga tributária é de cerca de 40%, e na China, de 20%. Enquanto o real alcança seu valor mais alto em vários anos em relação ao dólar, a moeda chinesa, o yuan, é mantida artificialmente desvalorizada em relação à americana, o que torna ainda mais competitivos os produtos chineses. O Brasil procura observar com rigor todas as regras internacionais de comércio, mas a China muitas vezes as burla. E a infraestrutura brasileira voltada para as exportações é muito menos eficiente do que a chinesa.

Outra grande diferença na forma como cada um dos dois países conduz o relacionamento bilateral é que a China sempre soube o que quer do Brasil, como sabe o que quer de outros fornecedores e clientes, dos quais depende para assegurar o suprimento dos bens de que necessita para sustentar seu crescimento e o mercado para seus produtos. O governo brasileiro, ao contrário, manteve, até recentemente, uma visão ingênua a respeito desse relacionamento, considerando a China um parceiro estratégico que merecia até o reconhecimento, feito pelo ex-presidente Lula, como economia de mercado, o que lhe facilitaria ainda mais acesso aos mercados de outros países. Com a visita que fará à China a partir de segunda-feira, a presidente Dilma Rousseff, que não parece endossar essa visão ingênua, terá oportunidade para negociar com o parceiro asiático as bases de um relacionamento comercial mais equilibrado.