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08 setembro 2011

Itália adverte Brasil de que caso Battisti chegará neste mês a Haia


O ministro das Relações Exteriores da Itália, Franco Frattini, afirmou nesta quinta-feira que o caso do ex-ativista Cesare Battisti chegará no fim do mês à Corte Internacional de Justiça de Haia (Holanda) se nenhum acordo for alcançado. "No fim deste mês, o Tribunal de Justiça Internacional vai tratar do caso Battisti", disse Frattini, ao ressaltar que em 15 de setembro vence o prazo para constituir uma comissão de conciliação entre os países.

A Itália anunciou que levaria o caso à corte internacional após o Supremo Tribunal Federal (STF) validar a decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de manter o italiano no Brasil, segundo a Agência Ansa. Frattini disse que pediu ao ministro das Relações Exteriores brasileiro, Antonio Patriota, que ambos se reúnam em Nova York entre os dias 22 e 23 de setembro. Segundo Frattini, nessa data "terá terminado o prazo para constituir uma comissão de conciliação, e se o Brasil não nomear antes seu representante, nós pediremos ao Tribunal de Haia que intervenha".

Em junho, o governo italiano ordenou a sua embaixada no Brasil que solicitasse às autoridades brasileiras a ativação da Comissão Permanente de Conciliação prevista na Convenção de 1954 entre os dois países, mas ainda não recebeu resposta.

O caso voltou a ser notícia na quarta-feira depois que, em entrevista à agência italiana Ansa, o ex-membro do grupo Proletários Armados pelo Comunismo pediu "perdão" às vítimas do terrorismo e condenou a luta armada.

Caso Battisti
Ex-integrante da organização de extrema-esquerda Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), Cesare Battisti foi condenado pela Justiça italiana à prisão perpétua por quatro assassinatos, ocorridos no final da década de 1970. O italiano nega as acusações. Depois de preso, Battisti, considerado um terrorista pelo governo da Itália, fugiu e se refugiou na América Latina e na França, onde viveu exilado por mais de 10 anos, sob proteção de uma decisão do governo de François Miterrand. Quando o benefício foi cassado pelo então presidente Jacques Chirac, que determinou a extradição de Battisti à Itália, o ex-ativista fugiu para o Brasil em 2004. Encontrado, ele ficou preso no País a partir de 2007.

O então ministro da Justiça, Tarso Genro, sob o argumento de "fundado temor de perseguição", garantiu ao italiano o status de refugiado político, o que em tese poderia barrar o processo de extradição que o governo da Itália havia encaminhado à Suprema Corte brasileira. Ainda assim, o caso foi a julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) no final de 2009, quando os magistrados decidiram que o italiano deveria ser enviado a seu país de origem, mas teria de cumprir pena máxima de 30 anos de reclusão, e não prisão perpétua como definido pelo governo da Itália. Na mesma decisão, no entanto, os ministros definiram que cabia ao presidente da República a decisão final de extraditar ou confirmar o refúgio a Battisti.

No dia 31 de dezembro de 2010, último dia de seu governo, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não extraditar Battisti à Itália, com base em parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que levantava suspeitas de que a ida do ex-ativista a seu país de origem poderia colocar em risco a sua vida. Segundo o documento, a repercussão do caso e o clamor popular tornariam o futuro de Battisti "incerto e de muita dificuldade" na Itália.

Três dias depois da decisão de Lula, a defesa de Battisti entrou com um pedido de soltura no STF, mas o governo italiano pediu ao Supremo o indeferimento da petição alegando "absoluta falta de apoio legal". Na ocasião, o presidente do STF, Cezar Peluso, negou a libertação imediata e determinou que os autos fossem encaminhados ao relator do caso, ministro Gilmar Mendes. No dia 3 de fevereiro, o governo italiano encaminhou STF um pedido de anulação da decisão de Lula, acusando-o de não cumprir tratados bilaterais entre os dois países.

Os recursos foram julgados no dia 8 de junho de 2011. Primeiro, O plenário decidiu que o governo da Itália não tinha legitimidade para contestar a decisão de Lula. Em seguida, o STF determinou a liberdade imediata do italiano por entender que não cabe ao Supremo contestar a decisão "soberana" de um presidente da República. Com o fim da sessão, o alvará de soltura de Battisti foi encaminhado para a penitenciária da Papuda, em Brasília, de onde ele saiu nos primeiros minutos do dia 9 de junho, após quatro anos preso.