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15 agosto 2011

Após sucesso, Cocal dos Alves espera políticos para inaugurar escola

Pronto! Agora um monte de gente vai querer tirar proveito político da situação. Qtos "pais da criança" não irão aparecer?

Fenômeno em competições educacionais, cidade no interior do Piauí chamou atenção de governo e até de imprensa internacional

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 15/08/2011 19:43

Destaque em competições educacionais desde 2005, a pequena Cocal dos Alves, no Piauí, ganha agora atenção de governos - municipal, estadual e federal. A cidade de 5 mil habitantes teve este mês a primeira cerimônia local de entrega de prêmios aos medalhistas nacionais em matemática e, nas próximas semanas, espera a visita de autoridades estaduais e do ministro da Educação, Fernando Haddad, para inaugurar o novo prédio da única escola de ensino médio do local, que está pronto e aguarda apenas a agenda dos políticos para começar a funcionar.

Mesa de autoridades e professores na cerimonia que Cocal dos Alves fez neste mês - Foto: Joaquim Amaral
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O município ficou famoso por ser a terra do vencedor do último concurso Soletrando, do programa Caldeirão do Huck e, logo em seguida, ter 12 premiados nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas. O iG foi conhecer o fenômeno e constatou duas realidades que pareciam contraditórias: os cocalalvenses são destaques também em outras disciplinas e todos que se candidataram a Universidade Federal do Piauí, foram aprovados; ao mesmo tempo, as escolas não possuem estrutura mínima, como quadras, laboratórios ou sequer pátio de convivência. Alunos e professores atribuem o resultado ao esforço uns dos outros.

Foto: Cinthia Rodrigues

Medalhista em frente sua casa. Prêmio inclui R$ 100 por mês que comprou geladeira da família

Após o sucesso, no entanto, a cidade ganhou reforços. O Ministério da Educação ofereceu programas de aumento da carga horária e montagem de laboratórios de informática. Já a Secretaria de Estadual de Educação deu cursos de formação em inclusão aos educadores na primeira semana de aulas do segundo semestre.

No município, que até junho não havia comemorado o desempenho dos estudantes do ano passado, houve uma grande festa patrocinada pela Prefeitura e foram distribuídos notebooks, máquinas fotográficas e rádios aos medalhistas. “Foi uma festa muito bonita e pela primeira vez nós professores fomos só para participar”, afirma o professor de matemática Antonio Cardoso do Amaral, contando que até o ano anterior, os educadores improvisavam as homenagens.

"Acordo" definirá inauguração

O maior prêmio deve vir nos próximos dias. O novo prédio da unidade de ensino médio Augustinho Brandão, prometido desde 2009, está pronto. Em nota, a Secretaria Estadual responsável pela obra feita com dinheiro federal afirmou que a data de inauguração “está sendo definida em comum acordo com as agendas de compromisso dos gestores”. Segundo o secretário de Educação piauiense Átila Lira, a visita do ministro deve acontecer ainda este mês. “O ministro está acertando com o governador a data mais adequada. A presença dele significa uma homenagem à educação do nosso Estado, que a partir do município de Cocal dos Alves mostrou que a educação pública é viável”, informa o texto.

Enquanto isso, Amaral e os alunos se esforçam para manter o padrão. Uma turma de iniciantes que recebe aulas extras de matemática aos sábados deveria ter 30 alunos, mas está com 50 inscritos e, toda semana, aparece mais alguém. “Chega um menino e diz ‘eu fico no canto, não vou atrapalhar’, eu aceito”, conta Amaral.

Os ex-alunos, que agora estudam na Universidade Federal também ajudam. Durante as férias, dois deles montaram cursos de iniciação a uma das áreas de matemática que conhece melhor e aproveitaram a visita às famílias para ensinar aos colegas mais novos. “Enquanto eu preparo uma nova turma, eles trabalham o desenvolvimento dos mais velhos. Estamos tentando responder ao interesse de todos”, diz o professor que teve medalhistas em todas as edições das olimpíadas de matemática.

Desconhecido até poucos meses, ele agora tem oferta de emprego de redes particulares de outros Estados, vai receber a correspondente brasileira do jornal holandês Trouw e foi selecionado pela revista Alfa um dos 45 homens do ano, ao lado de ex-presidentes, jogadores de futebol, empresários, estilistas e chefs com renome internacional. “O reconhecimento aumento, isso dá felicidade e um pouco de medo, mas se servir de exemplo, vale a pena”, diz.

http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/apos+sucesso+cocal+dos+alves+espera+politicos+para+inaugurar+escola/n1597157772667.html?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

09 julho 2011

Escolas campeãs no Piauí têm prova toda semana e alta reprovação

Índice da Educação Básica (Ideb) de Cocal dos Alves é bom, mas seria bem maior se não fosse a alta taxa de repetência

Cinthia Rodrigues, enviada a Cocal dos Alves (PI) | 01/07/2011 07:00

Fenômeno em concursos educacionais, o município de Cocal dos Alves, no interior do Piauí, adota posturas polêmicas no sistema de ensino. As principais são repetência e provas todas as semanas. Os educadores implantaram um sistema de recuperação paralela, mas mantêm a postura rígida. “Damos várias chances, se o aluno não tiver condição, tem que reprovar”, diz Elizete Costa do Amaral, diretora da unidade escolar Teotônio Ferreira Brandão.

Foto: Cinthia Rodrigues

Refeitório improvisado na escola de ensino médio

A escola com 390 alunos tem Índice de Educação Básica (Ideb) de 4,5, acima da média geral do Estado, de 3,8, e do País, de 4 pontos. Pelo nota da Prova Brasil, no entanto, o conceito poderia ser de até 6,6 – acima das particulares que chegam a 5,9 – se não fosse a taxa de fluxo escolar (que considera repetências e evasão) ser de apenas 67%.

A maior parte das repetências ocorre logo na 5ª série, quando a instituição, única do município para esta etapa, recebe alunos que fizeram a 1ª a 4ª série em unidades rurais. “Metade da minha turma está fazendo a 5ª pela segunda vez”, conta uma jovem de 14 anos, que já havia sido reprovado uma vez antes na unidade rural em que fez o primeiro ciclo. “É ruim porque as aulas são as mesmas que já vimos.”

Foto: Cinthia Rodrigues Ampliar

Quadra municipal, equipamento não existe dentro das escolas

O professor hexa formador de medalhista da Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), Antonio Cardoso do Amaral, afirma que a equipe se preocupa com a situação. “Implantamos até uma aula paralela para quem tem dificuldade uma vez por mês, mas ainda não é suficiente.”

Uma das dificuldades para recuperar as turmas é a falta de espaço físico e pessoal. Os professores dão, em média, 50 aulas por semana e as quatro salas são usadas para aulas em todos os períodos. O calor constante é enfrentado com ventiladores barulhentos. “A gente ainda tem muitas necessidades por aqui, esses prêmios todos fazem parecer que a educação está ótima, mas somos carentes de tudo”, explica Elizete.

Falta quadra, laboratórios e até espaço de convivência. Na hora do intervalo, as crianças comem em pé ou sentadas no chão. O mesmo ocorre na unidade de ensino médio, a Augustinho Brandão – que teve todos os alunos inscritos aprovados no vestibular da Universidade Federal do Piauí no último ano. A única diferença é que com apenas 148 alunos, foi possível instalar algumas mesas no corredor para servir de refeitório.

“Temos um dos melhores resultados do Brasil, com uma das piores condições”, diz o coordenador pedagógico Darkson Vieira Machado. Neste caso, parte da solução está a caminho.

Por conta dos títulos, os educadores conseguiram repercussão suficiente para convencer políticos a construir uma nova escola. A unidade modelo do Ministério da Educação com um prédio administrativo, outro de serviços e o pavilhão de salas de aula está quase pronta e deve ser entregue no próximo semestre. Só faltava ter incluído uma quadra no projeto.


Em Cocal dos Alves nada é mais importante que competições educacionais

iG visitou cidade campeã em matemática no interior do Piauí e descobriu que também há prêmios em química, português, geografia...

Cinthia Rodrigues, enviada a Cocal dos Alves (PI) | 01/07/2011 07:00

Em apenas três meses, a pequena cidade de Cocal dos Alves, de 5,6 mil habitantes no interior do Piauí, ganhou espaço nobre no noticiário brasileiro duas vezes. Em março, por ser a cidade onde nasceu e vive o vencedor do concurso Soletrando, programa de Luciano Huck, e na semana passada por receber quatro medalhas de ouro, três de prata e cinco de bronze nas Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Em visita à cidade, o iG descobriu que o cocalalvense não é bom só nessas áreas. Há títulos em competições de outras disciplinas e todos os 16 alunos que se candidataram a vagas na Universidade Federal do Piauí no ano passado foram aprovados.

Nos últimos dois anos, foram três medalhas nas olimpíadas estaduais de química e uma na brasileira de língua portuguesa, além de trófeus de equipe. Em 2008, a cidade participou de um campeonato de história e geografia em comemoração aos 250 anos do Estado. Sagrou-se campeã. No ano seguinte, repetiram o campeonato e a cidade chegou à final sem errar nenhuma pergunta, assim como os rivais de Teresina. Para desempatar, foi feito um esquema em que a mesma pergunta era feita para as duas equipes e respondia quem batesse primeiro em um botão, mas aí os cocalalvenses ficaram apenas com o vice.



(Izael Francisco de Araújo, campeão do Soletrando, fala da motivação dos alunos em Cocal dos Alves)

Porcos e cajueiros
Quanto mais se enumeram as vitórias, maior é o contraste com o tamanho da cidade a 300 quilômetros de Teresina. De perto, Cocal dos Alves parece menor ainda do que revela o tamanho de sua população. Muitas famílias moram em casas afastadas em meio a grandes plantações de cajueiros, a principal fonte de renda da cidade. A maior parte das ruas é de terra ou areia e frequentada por galinhas, cabras e porcos que vivem fora da cerca.

Na época de chuva, alunos como Clara Mariane Silva de Oliveira, de 13 anos – uma das que recebeu pessoalmente os cumprimentos da presidenta Dilma Rousseff pelo ouro em cerimônia no Rio de Janeiro – atravessam um rio com água até os joelhos para pegar o transporte escolar. “O carro atola ali, eu puxo a calça e passo.”

Foto: Cinthia Rodrigues Ampliar

Fachada da escola de ensino médio que teve 16 aprovados na Federal do Piauí

No pequeno centro de meia dúzia de ruas de paralelepípedo e casas sem recuo, nada remete às recentes glórias educacionais. A única faixa, esticada na Praça da Igreja, diz “Bem-vindos aos festejos de São João Batista”. Mesmo nas duas escolas campeãs, a Unidade Escolar Teotônio Ferreira Brandão, de ensino fundamental, e a Augustinho Brandão, de ensino médio, não há troféus expostos, por falta de estrutura – todas as salas são usadas para aulas, não há espaço de convivência, quadra ou laboratórios e biblioteca é um luxo que existe em apenas uma delas.

Sonho possível
Para os alunos e professores envolvidos nas competições, no entanto, nada é mais importante. Além das aulas regulares, há treinamentos aos sábados e, quase todos os dias, cada um estuda em sua casa, por prazer e pelo sonho, comprovadamente possível, de se destacar. Na zona rural, a energia elétrica vem sendo instalada nos últimos dois anos e a referência para crianças e adolescentes não é nenhum astro da música ou do futebol, mas os colegas medalhistas.

“Desde pequena, meu sonho é ganhar medalha”, diz Ana Carla de Brito Amaral, de 11 anos. Os pais e professores chegaram a temer uma frustração. “No ano passado, ela disputou pela primeira vez e a gente conversou que na 5ª série o máximo que alguém tinha ganhado era um bronze, então, uma menção honrosa estaria ótimo”, lembra a mãe, Edna de Brito.

Ana Carla conquistou a prata. Estabeleceu um novo recorde a ser perseguido pelos amigos, enquanto ela mesma já tem outros planos: “Quero o ouro na matemática e, quando tiver idade, vou disputar o Soletrando”, avisa, com um sorriso tímido, mas confiante.

Para o coordenador estadual das olimpíadas, João Xavier da Cruz Neto, professor de Matemática da Universidade Federal do Piauí, o que faz os alunos de Cocal dos Alves terem mais paixão pelos livros do que pela bola são os professores. “A diferença entre o futebol e a matemática é que no esporte qualquer um reconhece e estimula um talento. Já na matemática, a maioria não enxerga e muitos vêem alunos desafiadores como problema.”

Professores nascidos e criados na terra
O desempenho do professor de matemática Antonio Cardoso do Amaral se traduz em números. Desde que a OBMEP começou em 2005, ele teve alunos premiados em todas as edições: 2 pratas e 1 bronze no primeiro ano; 1 ouro, 3 pratas e 2 bronzes em 2006; 2 ouros, 1 prata e 5 bronzes em 2007; 6 bronzes em 2008; 1 ouro, 1 prata e 8 bronzes em 2009; e o resultado recorde do ano passado, cuja premiação ocorreu neste mês.

Por causa disso, foi convidado a falar ao Senado, fazer uma reunião com o ministro da Educação Fernando Haddad e dar informações à assessoria de Dilma Rousseff, que vai comentar o assunto no seu programa de rádio Café com a Presidenta. “Só dá certo porque os alunos querem aprender”, garante.

Para comprovar a tese, conta que se inscreveu em um concurso para uma vaga de mestrado em que havia 40 vagas e 800 inscritos. Ficou em 53º lugar. “Não estou entre os melhores. O que faço é me esforçar para apresentar a matemática como ela é. Nunca dou uma fórmula pronta, volto lá na história, resolvo do jeito difícil, mostro o caminho penoso e como alguém saiu dali para uma fórmula que tornou mais fácil resolver tal questão.”

Amaral nasceu em Cocal dos Alves, antes da emancipação do município, que ocorreu há apenas 15 anos. Fez o primário ali e o restante na vizinha que já foi sede, Cocal – sem "dos Alves" e sem medalhas. Nos primeiros anos em que deu aula, enfrentou resistência dos familiares dos alunos. “Ele era rígido, os pais vinham todos reclamar comigo”, conta João de Brito Cardoso, primeiro prefeito da cidade, analfabeto – como quase toda a população acima de 50 anos – e avô de uma medalhista. Para Amaral, a olimpíada foi o que o salvou.

Foto: Cinthia Rodrigues Ampliar

João Francisco em frente sua casa. Bolsa de R$ 100 por mês foi usada para comprar geladeira

Futuro promissor
Os resultados educacionais começam a mudar a vida dos cocalalvenses. A primeira transformação ocorre nas próprias escolas. Todos os oito computadores e o datashow utilizados foram prêmios pelos resultados nas competições. Desde o campeonato pelo aniversário do Estado, também há a promessa da construção de uma quadra, luxo que nenhuma das unidades possui até agora.

A própria escola de ensino médio vai mudar de prédio no próximo semestre. O governo federal construiu uma instituição modelo com prédios arejados e espaço de jardinagem que, por enquanto, destoa. “Lá vamos poder montar laboratórios, coisa que nunca se viu por aqui”, diz o coordenador pedagógico, Darkson Vieira Machado.

Nas casas dos premiados, também já se vê mudança. Algumas competições os premiaram com netbooks, e as medalhas nas olimpíadas brasileiras dão direito a bolsa de R$ 100 por mês durante um ano. No casebre sem reboco e com fogão à lenha de João Francisco Rocha, de 17 anos – medalha de bronze em 2008, o dinheiro se transformou na geladeira, que a família ainda não tinha.

O professor Amaral confia que vem muito mais por aí: “Se você voltar aqui em 10 anos, essa família vai ter uma condição de vida totalmente diferente, proporcionada pelo profissional bem formado e pago que este menino vai se tornar. Garanto.”

http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/em+cocal+dos+alves+nada+e+mais+importante+que+competicoes+educacionais/n1597057185707.html