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03 abril 2011

Unanimidade nacional

m empresário diferente, um político distinto. "Todo mundo fica bom depois que morre. Mas o José Alencar era bom em vida", definiu Lula emocionado. A presidenta Dilma se declarou "honrada" pelo convívio. Por Cynara Menezes. Foto: Pedro Vilela/AFP.

Um empresário diferente, um político distinto

Morto na terça-feira 29 aos 79 anos, após quase uma década e meia de batalha contra o câncer, o ex-vice-presidente José Alencar parece ter conseguido uma façanha que nem seu parceiro Lula, do alto de sua imensa popularidade, conseguiu. Alencar conquistou a unanimidade em vida. Aberto à visitação pública, seu velório contou com a presença da República em peso: juízes dos tribunais superiores, parlamentares de todos os partidos, governadores, ministros de Estado. Mais de 8 mil cidadãos comuns também prestaram a última homenagem ao ex-vice em Brasília. Em Belo Horizonte, o corpo foi velado por cerca de 5 mil pessoas no Palácio da Liberdade, antes de ser cremado.

Nascido em 17 de outubro de 1931 no povoado de Itamuri, distrito da pequena Muriaé, na Zona da Mata de Minas Gerais, José Alencar Gomes da Silva lutava há 14 anos contra um câncer de intestino e passara por 17 cirurgias. Seu amor pela vida comoveu os brasileiros. Nos depoimentos durante o velório na capital federal, as palavras mais ouvidas eram “exemplo”, “lição”, “fé”, “superação”, “otimismo”, “força”. Não foram poucos os famosos e anônimos que definiram Alencar como “um guerreiro”.

O ex-presidente Lula, que estava em Portugal para receber o título de doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra, teve de conter as lágrimas ao prestar homenagem ao vice e amigo. “É fácil falar das pessoas depois que morrem, porque todo mundo fica bom depois que morre. Mas o José Alencar era bom em vida.” Segundo Lula. Alencar era como um “um irmão”. A presidenta Dilma Rouseff, que fora a Portugal acompanhar o antecessor, afirmou: “Foi uma grande honra ter convivido com José Alencar. É uma daquelas pessoas que vão deixar uma marca indelével na vida de cada um”. Ambos anteciparam o retorno ao Brasil e chegaram a tempo de acompanhar o velório, na noite da quarta-feira 30.

A maior homenagem que Lula poderia fazer a Alencar foi lembrar a importância que o empresário, dono da Coteminas, teve em sua eleição, em 2002, após três tentativas fracassadas. “Todo mundo sabe que eu perdi muitas eleições no Brasil. Eu tinha 30%, 32%, 34% dos votos, e precisava encontrar o restante. Encontrei o restante no José Alencar.” Não é exagero. À época, uma pesquisa do instituto Vox Populi apontava que a presença do então senador pelo PL na chapa do PT poderia atrair o eleitor que nunca votara em Lula em 1989, 1994 e 1998. Dito e feito: em 2002, com Alencar ao lado, Lula teve 46,4% dos votos válidos e foi eleito.

Um típico self-made man, Alencar gostava de comparar o êxito que conquistou na vida empresarial com o que Lula conquistara na vida política. Filho de comerciante modesto, viera praticamente do nada para se tornar um dos maiores empresários do setor têxtil com a Coteminas, dirigida por seu filho Josué, que faturou 3 bilhões de reais no ano passado. Desde que se uniu à norte-americana Springs, em 2005, a gigante produtora de mais de 100 mil toneladas de fibras, tornou-se a maior do mundo no ramo de artigos para cama, mesa e banho. Com 15 fábricas no Brasil, cinco nos Estados Unidos, uma na Argentina e uma no México, a Coteminas tem origem na minúscula A Queimadeira, fundada em 1950 em Caratinga (MG), quando Alencar tinha 18 anos.

O futuro vice de Lula tinha começado o negócio com um empréstimo de 15 mil cruzeiros da época, tomado ao irmão mais velho, Geraldo. Quatro anos antes, aos 14, havia saído da casa dos pais para ganhar a vida como vendedor na loja de tecidos A Sedutora. Sua morada então era o corredor de um hotel, em Muriaé, que alugou após muito regateio com a dona do estabelecimento para incluir no preço três refeições e roupa lavada. Em seguida, mudou-se para Caratinga, onde trabalharia como vendedor na Casa Bonfim até abrir seu próprio negócio.

O salto para se tornar um grande empresário se daria em 1967, aos 36 anos, com um empréstimo da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), para fundar, em Montes Claros, a Companhia de Tecidos Norte de Minas, Coteminas. Alencar se orgulhava de ter pago “cada centavo” do financiamento. Só iria se tornar político bem mais tarde, aos 63 anos, em 1994, quando se lançou candidato a governador de Minas Gerais pelo PMDB e perdeu. Em 1998, se elegeria senador pelo estado.

Seu conterrâneo Itamar Franco contou em Brasília que, presidente da República, em 1993, um ano antes da eleição, chegou a convidá-lo para ser seu ministro da Indústria e Comércio. Alencar recusou e manifestou a intenção de disputar a convenção do PMDB e sair candidato ao governo. O ex-presidente disse que sua maior lembrança do ex-vice de Lula é da época da privatização da Vale do Rio Doce, no governo Fernando Henrique Cardoso. Nacionalistas, os dois eram contra.

“Estávamos num comício no interior de Minas, quando recebemos a notícia. Alencar, que gostava de fazer contas de cabeça, me disse: ‘Itamar, a privatização da Vale equivale a apenas 17 dias do serviço da dívida externa’”. Os amigos, que romperam durante o governo Lula, estavam afastados desde então, mas o atual senador manteve a admiração. “Era, sobretudo, um homem de princípios. Quantas vezes ele discordou da política de juros do governo do qual fazia parte”, lembrou Itamar.

Lula e Alencar começaram a se aproximar no fim de 2000, na celebração dos 50 anos do mineiro como empresário. O ex-metalúrgico ficou impressionado com a exibição, em Belo Horizonte, de um filme sobre a história da Coteminas. Saiu de lá dizendo: “Encontrei meu vice”. Alencar já tinha certa aproximação com o PT, oriunda de sua amizade com o ex-prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro, afastado do cargo por razões de saúde e que viria a falecer em 2008. Quando se conheceram, Castro estava no PSB e se mudaria para o PT em seguida. Alencar estava no PMDB, mas a aliança foi fechada quando entrou no PL. Desde 2005 era filiado ao PRB.

Com José Dirceu como padrinho e grande articulador, o casamento do PT com o PL, para ter José Alencar como vice, não teve um começo fácil. Tanto do lado do conservador Partido Liberal, que tinha seis dos seus 22 deputados ligados à Igreja Universal, quanto do lado do PT. Alencar chegou a ser vaiado pela militância na convenção do partido que homologou a aliança, em junho de 2002. Lula sairia em defesa de seu futuro vice, que, disse, era tão vítima de “preconceito” ao ser um empresário num reduto de trabalhadores e militantes de esquerda quanto ele, ex-operário, era, ao “entrar de gravata num restaurante”.

Bom prosador, uma das frases de Alencar que arrefeceu os ânimos dos petistas mais radicais que se opunham à sua presença na chapa foi: “Sou consciente de que o trabalho nasceu antes do capital. Na história das civilizações e na minha história”. Em Portugal, o próprio Lula relembrou a resistência inicial dentro do partido ao vice. “Tinha muita gente mais à esquerda que achava que não deveria chamá-lo para a chapa. Mas cada vez que ele falava e contava a vida dele até o mais esquerdista acabava chorando, porque era um homem de bem, extraordinário.”

Em entrevista a CartaCapital, em julho de 2002, Alencar mostrou simpatia pelos novos companheiros à esquerda. Elogiou os prefeitos do PT em Minas e se disse admirador de Celso Furtado, embora considerasse, em termos de teoria econômica, o liberal Roberto Campos seu “grande mestre” e Delfim Netto, “um craque”. Perguntado de que lado batia seu coração em termos ideológicos, respondeu: “Meu coração bate mais no centro”. Mais recentemente, em 2009, mostrava ter migrado um tantinho para o lado: “Sempre fui de esquerda”, disse. “Uma esquerda significando responsabilidade social, para com o próximo, e defesa dos interesses nacionais.”

O milionário do setor têxtil e o ex-metalúrgico tinham, na verdade, bastante em comum. A começar pelas mulheres, ambas Marisa – a de José Alencar, com Z. Também gostavam de tomar uma caninha. Apreciador de uma boa cachaça, Alencar costumava tomar uma dose (ou “golo”, como falava) antes do almoço, uma das coisas de que mais sentia falta nas tantas internações do último ano. Ele produzia três aguardentes em sua fazenda em Pedras de Maria da Cruz, na região de Januária, no norte de Minas, famosa pela cachaça: Sagarana (em homenagem à obra de Guimarães Rosa), Maria da Cruz e Porto Estrela, que tinham em Lula um “degustador” privilegiado.

Homem que conservava os hábitos simples da gente do interior, o ex-vice possuía apartamentos no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, nem sempre com empregados full time. Tanto é que, volta e meia, era ele mesmo quem atendia o telefone. Chegou, por isso, a ser vítima do “golpe do sequestro”, em abril do ano passado. Ao atender o aparelho, ouviu uma voz de mulher chorando, passando-se por uma de suas filhas. O golpista desligou o telefone ao ser informado por Alencar de sua profissão: “Sou vice-presidente da República do Brasil”.

Mais do que presidente e vice, “companheiros”, como fez questão de destacar Lula, os dois gozavam de intimidade tal que utilizavam uma passagem interna entre os palácios da Alvorada e do Jaburu para tomar café juntos, como dois compadres. Alencar também ficou próximo da futura presidenta Dilma Rousseff. Mesmo internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, participou de uma carreata durante a campanha. Teve de ser demovido da ideia de comparecer à posse da sucessora de Lula pela mulher, Mariza, que bateu o pé e não permitiu o deslocamento, embora o presidente tenha posto à sua disposição um avião.

No último mês de vida, Alencar havia decidido deixar o hospital, abandonar a quimioterapia e ir para casa. Na penúltima internação, em fevereiro deste ano, ainda esperançoso, fizera a derradeira químio. Desde então, decidira-se apenas pela hemodiálise e pelos sedativos para aplacar a dor. Após passar inclusive por tratamentos experimentais nos Estados Unidos, optara, ao final, pela qualidade de vida. Já não queria tomar remédios para reduzir os tumores, só para tratar os episódios que surgissem. Ficou em casa até a internação final, na segunda-feira 28.

O jornalista Ricardo Kotscho, ex-porta-voz de Lula e também muito amigo de Alencar, contou que o ex-vice-presidente chegara ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, consciente e com o bom humor habitual. O último comentário que fez ao médico que o tratava desde o princípio de sua doença, Raul Cutait, demonstrava saber da gravidade de seu estado: “O doutor Raul não vai falar nada? Se o doutor Raul não está falando nada, é porque estou mal, a situação deve ser grave mesmo…”, contou Kotscho em um artigo. Na realidade, mesmo consciente das grandes chances de sobreviver, Alencar ainda tinha esperança de poder comemorar seu 80º aniversário em outubro. Seu histórico justificava.

Não foram poucas as vezes em que a morte espreitou seu leito nos últimos anos e perdeu. Sua extraordinária vontade de viver deu-lhe forças sobre-humanas em diversas ocasiões.

Ao ser velado em Brasília, o mais popular dos vice-presidentes da história do País deixou de presente a seus admiradores a oportunidade de subir a mesma rampa que o empresário de sucesso um dia galgara ao lado do primeiro operário a chegar à Presidência. Podia-se dizer que foi a aliança do “trabalhador” com o “bom patrão”, não fosse por um detalhe: Alencar detestava a palavra “patrão”.

Unanimidade nacional

m empresário diferente, um político distinto. "Todo mundo fica bom depois que morre. Mas o José Alencar era bom em vida", definiu Lula emocionado. A presidenta Dilma se declarou "honrada" pelo convívio. Por Cynara Menezes. Foto: Pedro Vilela/AFP.

Um empresário diferente, um político distinto

Morto na terça-feira 29 aos 79 anos, após quase uma década e meia de batalha contra o câncer, o ex-vice-presidente José Alencar parece ter conseguido uma façanha que nem seu parceiro Lula, do alto de sua imensa popularidade, conseguiu. Alencar conquistou a unanimidade em vida. Aberto à visitação pública, seu velório contou com a presença da República em peso: juízes dos tribunais superiores, parlamentares de todos os partidos, governadores, ministros de Estado. Mais de 8 mil cidadãos comuns também prestaram a última homenagem ao ex-vice em Brasília. Em Belo Horizonte, o corpo foi velado por cerca de 5 mil pessoas no Palácio da Liberdade, antes de ser cremado.

Nascido em 17 de outubro de 1931 no povoado de Itamuri, distrito da pequena Muriaé, na Zona da Mata de Minas Gerais, José Alencar Gomes da Silva lutava há 14 anos contra um câncer de intestino e passara por 17 cirurgias. Seu amor pela vida comoveu os brasileiros. Nos depoimentos durante o velório na capital federal, as palavras mais ouvidas eram “exemplo”, “lição”, “fé”, “superação”, “otimismo”, “força”. Não foram poucos os famosos e anônimos que definiram Alencar como “um guerreiro”.

O ex-presidente Lula, que estava em Portugal para receber o título de doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra, teve de conter as lágrimas ao prestar homenagem ao vice e amigo. “É fácil falar das pessoas depois que morrem, porque todo mundo fica bom depois que morre. Mas o José Alencar era bom em vida.” Segundo Lula. Alencar era como um “um irmão”. A presidenta Dilma Rouseff, que fora a Portugal acompanhar o antecessor, afirmou: “Foi uma grande honra ter convivido com José Alencar. É uma daquelas pessoas que vão deixar uma marca indelével na vida de cada um”. Ambos anteciparam o retorno ao Brasil e chegaram a tempo de acompanhar o velório, na noite da quarta-feira 30.

A maior homenagem que Lula poderia fazer a Alencar foi lembrar a importância que o empresário, dono da Coteminas, teve em sua eleição, em 2002, após três tentativas fracassadas. “Todo mundo sabe que eu perdi muitas eleições no Brasil. Eu tinha 30%, 32%, 34% dos votos, e precisava encontrar o restante. Encontrei o restante no José Alencar.” Não é exagero. À época, uma pesquisa do instituto Vox Populi apontava que a presença do então senador pelo PL na chapa do PT poderia atrair o eleitor que nunca votara em Lula em 1989, 1994 e 1998. Dito e feito: em 2002, com Alencar ao lado, Lula teve 46,4% dos votos válidos e foi eleito.

Um típico self-made man, Alencar gostava de comparar o êxito que conquistou na vida empresarial com o que Lula conquistara na vida política. Filho de comerciante modesto, viera praticamente do nada para se tornar um dos maiores empresários do setor têxtil com a Coteminas, dirigida por seu filho Josué, que faturou 3 bilhões de reais no ano passado. Desde que se uniu à norte-americana Springs, em 2005, a gigante produtora de mais de 100 mil toneladas de fibras, tornou-se a maior do mundo no ramo de artigos para cama, mesa e banho. Com 15 fábricas no Brasil, cinco nos Estados Unidos, uma na Argentina e uma no México, a Coteminas tem origem na minúscula A Queimadeira, fundada em 1950 em Caratinga (MG), quando Alencar tinha 18 anos.

O futuro vice de Lula tinha começado o negócio com um empréstimo de 15 mil cruzeiros da época, tomado ao irmão mais velho, Geraldo. Quatro anos antes, aos 14, havia saído da casa dos pais para ganhar a vida como vendedor na loja de tecidos A Sedutora. Sua morada então era o corredor de um hotel, em Muriaé, que alugou após muito regateio com a dona do estabelecimento para incluir no preço três refeições e roupa lavada. Em seguida, mudou-se para Caratinga, onde trabalharia como vendedor na Casa Bonfim até abrir seu próprio negócio.

O salto para se tornar um grande empresário se daria em 1967, aos 36 anos, com um empréstimo da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), para fundar, em Montes Claros, a Companhia de Tecidos Norte de Minas, Coteminas. Alencar se orgulhava de ter pago “cada centavo” do financiamento. Só iria se tornar político bem mais tarde, aos 63 anos, em 1994, quando se lançou candidato a governador de Minas Gerais pelo PMDB e perdeu. Em 1998, se elegeria senador pelo estado.

Seu conterrâneo Itamar Franco contou em Brasília que, presidente da República, em 1993, um ano antes da eleição, chegou a convidá-lo para ser seu ministro da Indústria e Comércio. Alencar recusou e manifestou a intenção de disputar a convenção do PMDB e sair candidato ao governo. O ex-presidente disse que sua maior lembrança do ex-vice de Lula é da época da privatização da Vale do Rio Doce, no governo Fernando Henrique Cardoso. Nacionalistas, os dois eram contra.

“Estávamos num comício no interior de Minas, quando recebemos a notícia. Alencar, que gostava de fazer contas de cabeça, me disse: ‘Itamar, a privatização da Vale equivale a apenas 17 dias do serviço da dívida externa’”. Os amigos, que romperam durante o governo Lula, estavam afastados desde então, mas o atual senador manteve a admiração. “Era, sobretudo, um homem de princípios. Quantas vezes ele discordou da política de juros do governo do qual fazia parte”, lembrou Itamar.

Lula e Alencar começaram a se aproximar no fim de 2000, na celebração dos 50 anos do mineiro como empresário. O ex-metalúrgico ficou impressionado com a exibição, em Belo Horizonte, de um filme sobre a história da Coteminas. Saiu de lá dizendo: “Encontrei meu vice”. Alencar já tinha certa aproximação com o PT, oriunda de sua amizade com o ex-prefeito de Belo Horizonte, Célio de Castro, afastado do cargo por razões de saúde e que viria a falecer em 2008. Quando se conheceram, Castro estava no PSB e se mudaria para o PT em seguida. Alencar estava no PMDB, mas a aliança foi fechada quando entrou no PL. Desde 2005 era filiado ao PRB.

Com José Dirceu como padrinho e grande articulador, o casamento do PT com o PL, para ter José Alencar como vice, não teve um começo fácil. Tanto do lado do conservador Partido Liberal, que tinha seis dos seus 22 deputados ligados à Igreja Universal, quanto do lado do PT. Alencar chegou a ser vaiado pela militância na convenção do partido que homologou a aliança, em junho de 2002. Lula sairia em defesa de seu futuro vice, que, disse, era tão vítima de “preconceito” ao ser um empresário num reduto de trabalhadores e militantes de esquerda quanto ele, ex-operário, era, ao “entrar de gravata num restaurante”.

Bom prosador, uma das frases de Alencar que arrefeceu os ânimos dos petistas mais radicais que se opunham à sua presença na chapa foi: “Sou consciente de que o trabalho nasceu antes do capital. Na história das civilizações e na minha história”. Em Portugal, o próprio Lula relembrou a resistência inicial dentro do partido ao vice. “Tinha muita gente mais à esquerda que achava que não deveria chamá-lo para a chapa. Mas cada vez que ele falava e contava a vida dele até o mais esquerdista acabava chorando, porque era um homem de bem, extraordinário.”

Em entrevista a CartaCapital, em julho de 2002, Alencar mostrou simpatia pelos novos companheiros à esquerda. Elogiou os prefeitos do PT em Minas e se disse admirador de Celso Furtado, embora considerasse, em termos de teoria econômica, o liberal Roberto Campos seu “grande mestre” e Delfim Netto, “um craque”. Perguntado de que lado batia seu coração em termos ideológicos, respondeu: “Meu coração bate mais no centro”. Mais recentemente, em 2009, mostrava ter migrado um tantinho para o lado: “Sempre fui de esquerda”, disse. “Uma esquerda significando responsabilidade social, para com o próximo, e defesa dos interesses nacionais.”

O milionário do setor têxtil e o ex-metalúrgico tinham, na verdade, bastante em comum. A começar pelas mulheres, ambas Marisa – a de José Alencar, com Z. Também gostavam de tomar uma caninha. Apreciador de uma boa cachaça, Alencar costumava tomar uma dose (ou “golo”, como falava) antes do almoço, uma das coisas de que mais sentia falta nas tantas internações do último ano. Ele produzia três aguardentes em sua fazenda em Pedras de Maria da Cruz, na região de Januária, no norte de Minas, famosa pela cachaça: Sagarana (em homenagem à obra de Guimarães Rosa), Maria da Cruz e Porto Estrela, que tinham em Lula um “degustador” privilegiado.

Homem que conservava os hábitos simples da gente do interior, o ex-vice possuía apartamentos no Rio, São Paulo e Belo Horizonte, nem sempre com empregados full time. Tanto é que, volta e meia, era ele mesmo quem atendia o telefone. Chegou, por isso, a ser vítima do “golpe do sequestro”, em abril do ano passado. Ao atender o aparelho, ouviu uma voz de mulher chorando, passando-se por uma de suas filhas. O golpista desligou o telefone ao ser informado por Alencar de sua profissão: “Sou vice-presidente da República do Brasil”.

Mais do que presidente e vice, “companheiros”, como fez questão de destacar Lula, os dois gozavam de intimidade tal que utilizavam uma passagem interna entre os palácios da Alvorada e do Jaburu para tomar café juntos, como dois compadres. Alencar também ficou próximo da futura presidenta Dilma Rousseff. Mesmo internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, participou de uma carreata durante a campanha. Teve de ser demovido da ideia de comparecer à posse da sucessora de Lula pela mulher, Mariza, que bateu o pé e não permitiu o deslocamento, embora o presidente tenha posto à sua disposição um avião.

No último mês de vida, Alencar havia decidido deixar o hospital, abandonar a quimioterapia e ir para casa. Na penúltima internação, em fevereiro deste ano, ainda esperançoso, fizera a derradeira químio. Desde então, decidira-se apenas pela hemodiálise e pelos sedativos para aplacar a dor. Após passar inclusive por tratamentos experimentais nos Estados Unidos, optara, ao final, pela qualidade de vida. Já não queria tomar remédios para reduzir os tumores, só para tratar os episódios que surgissem. Ficou em casa até a internação final, na segunda-feira 28.

O jornalista Ricardo Kotscho, ex-porta-voz de Lula e também muito amigo de Alencar, contou que o ex-vice-presidente chegara ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, consciente e com o bom humor habitual. O último comentário que fez ao médico que o tratava desde o princípio de sua doença, Raul Cutait, demonstrava saber da gravidade de seu estado: “O doutor Raul não vai falar nada? Se o doutor Raul não está falando nada, é porque estou mal, a situação deve ser grave mesmo…”, contou Kotscho em um artigo. Na realidade, mesmo consciente das grandes chances de sobreviver, Alencar ainda tinha esperança de poder comemorar seu 80º aniversário em outubro. Seu histórico justificava.

Não foram poucas as vezes em que a morte espreitou seu leito nos últimos anos e perdeu. Sua extraordinária vontade de viver deu-lhe forças sobre-humanas em diversas ocasiões.

Ao ser velado em Brasília, o mais popular dos vice-presidentes da história do País deixou de presente a seus admiradores a oportunidade de subir a mesma rampa que o empresário de sucesso um dia galgara ao lado do primeiro operário a chegar à Presidência. Podia-se dizer que foi a aliança do “trabalhador” com o “bom patrão”, não fosse por um detalhe: Alencar detestava a palavra “patrão”.

Quanto menos armas em circulação, menos mortes

A Bruno Huberman

“Já está comprovado, por números, que a menor quantidade de armas em circulação, e não o contrário, aumenta a segurança e reduz a quantidade de homicídios.” A opinião é da diretora da ONG Sou da Paz, Melina Risso, que desde 2003 faz parte do programa Controle de Armas e luta, ao lado do governo federal, pelo desarmamento da sociedade. O Sou da Paz participou ativamente da aprovação do Estatuto do Desarmamento naquele ano e das campanha de recolhimento de armas de 2004 e 2008, que tiraram mais de 500 mil de circulação e regularizaram outras 1,5 milhão.

De acordo com levantamento de 2010 feito pelo Ministério da Justiça, o Brasil tem 16 milhões de armas, das quais 47,6% na ilegalidade. Com 34,3 mil homicídios ao ano, o País é o campeão mundial de mortes por armas de fogo, em números absolutos. No entanto, desde a aprovação do Estatuto, ou seja, entre 2004 e 2010, a taxa de mortalidade por armas de fogo caiu 8%, comprovando a tese de Risso.

Acerca do debate aberto sobre a origem do armamento dos criminosos brasileiros, a diretora fica com o sociólogo Antonio Rangel Bandeira, da ONG Viva Rio, sobre a hipótese que a maior parte do poder de fogo dos traficantes e cia. são de produção nacional. Essa posição vai contra a apresentada pelo diretor dos Colecionadores, Atiradores e Caçadores (CAC), Fabrício Rebelo, em carta enviada à CartaCapital. Sobre o CAC, Risso ainda discorda que a fiscalização deles é tão rígida como eles mesmo dizem. “O Exército não tem a quantidade de pessoas suficiente para fiscalizar no rigoroso processo que deveria fiscalizar.”

Leia abaixo a íntegra da entrevista. Na semana que vem publicaremos novas reportagens sobre o tema com diferentes setores envolvidos na questão.

A maioria das armas dos criminosos realmente vem de dentro do País?

“A informação de que as armas apreendidas no Brasil são prioritariamente de produção nacional está comprovada com dados. Sobre isso não tem como ir contra. Tem estudo feito pelo Centro de Análise e Planejamento (CAP) da Polícia Militar, de 2007, que mostra que as armas apreendidas por pessoas que de alguma maneira estavam cometendo algum crime são armas de fabricação nacional. A indústria nacional de armas alimenta a criminalidade. Isso é um fato, não há argumento contra. Por exemplo, a chefe da balística de São Paulo afirma que praticamente todas as armas que chegam para ela fazer uma análise são de fabricação nacional.”

O CAC

“O questionamento do CAC acontece porque ele é um setor muito visado. Nós fizemos uma pesquisa sobre a implementação do Estatuto do Desarmamento que mostrou que esse setor detém uma quantidade significativa de armas. Essa categoria chama atenção, mas não estou dizendo que essas pessoas estão desviando armas. Em 2007, tínhamos no Sigma (banco de dados de armas das Forças Armadas e do CAC) 154.522 armas registradas nas mãos de colecionadores, atiradores e caçadores. É um arsenal absurdo que está nas mãos de uma categoria que tem as armas como hobbie, que podemos inclusive questionar do ponto da segurança pública. Para além do desvio, essas pessoas que detém uma enorme coleção de armas acabam sendo visadas para o roubo.”

A fiscalização do CAC pelo Exército

“O Exército tem uma série de normas, que o diretor do CAC até coloca na carta dele publicada no site da CartaCapital, que precisam apresentar diversos documentos para conseguir uma carteirinha. Contudo, o Exército não tem a quantidade de pessoas suficiente para fiscalizar no processo rigoroso de como deveria fiscalizar. Ele é rigoroso mas não é feito. Você pode olhar a série de pesquisas e entrevistas em nosso site, que perguntamos para pessoas do Exército como é feita a fiscalização, quantas apreensões são feitas, mas aparece “inopinada”. A interpretação sobre “inopinada” que acontece dentro do Exército é uma piada às vezes, porque os militares tem a sensação de que precisam avisar as pessoas que vão fazer a fiscalização. Então eles nem fazem a fiscalização para não constranger o cara.”

A fiscalização do comércio de armas

“Nós temos um problema muito grande de fiscalização no país de todas as armas de uma maneira geral. Na pesquisa percebemos que apenas no Estado de São Paulo, um terço das armas registradas pelas empresas de segurança privada foram furtadas. Nós tínhamos aproximadamente 69 mil armas registradas pela segurança privada e quase 24 mil tinham sido furtadas no mesmo ano. Do ponto de vista do processo de fiscalização dessas categorias que tem muitas armas, nós temos que fazer um grande avanço. A Polícia Federal (PF) está num processo de mudança do sistema do Serviço Nacional de Armas (Sinarm), que registra todas as armas, para que tenha uma maior integração e facilidade.”

Análise e perspectiva sobre a questão das armas no Brasil

“Tivemos uma evolução muito grande nos últimos anos. O Sou da Paz foi criado em 1997, mas o assunto de controle de armas nem estava na pauta nacional, mas em 2003 entramos nessa questão do desarmamento. O Estatuto do Desarmamento foi um grande avanço na política de controle de armas nesse país. O fato dele ter proibido o porte de armas e ter dificultado o processo de compra, fez com que caísse o número de armas em circulação e vemos também uma sensível redução de homicídios. Em 2004, um ano após a aprovação do Estatuto, foi a primeira vez que vemos uma redução na curva de homicídios desde o início dos anos 1990. No entanto, só a lei aprovada não resolve: precisamos efetivamente implementá-la. Tem que ter mais fiscalização e aprimorar uma série de mecanismos de controle. Nós defendemos que a fiscalização do CAC passe para a PF e saia da mão do Exército para que tenhamos um controle civil sobre essas armas. Se o colecionador quer ter armas, nós podemos criar um mecanismo que desative o mecanismo de disparo da arma, porque ele não precisa de uma arma que de fato funcione, afinal ele é um colecionador. Ele pode importar até fuzil AK-47. Por outro lado, São Paulo foi Estado que de fato investiu na implementação do Estatuto. Na primeira campanha de recolhimento de armas em 2004, SP tirou de circulação mais de 100 mil armas. Nós observamos isso na redução da taxa de homicídio no Estado. De 2º Estadi com maior número de homicídio por arma de fogo, caiu para o 25º lugar. Outro lado que acompanhamos exaustivamente é uma série de projetos-de-lei que são apresentados no Congresso para desvirtuar o Estatuto. Eles tentam flexibilizar o porte de armas para diversas categorias, como, por exemplo, o educador social. Não é armando a população que vamos tornar o país mais seguro, mas é justamente o contrário.”

A implementação do Estatuto do Desarmamento

“Alguns pontos ainda não foram executados e outros precisam ser melhorados. A marcação de toda munição destinada às Forças Armadas e para a polícia ainda não tem um mecanismo aprimorado de fiscalização de desvio porque está sendo feita em uma escala muito grande. O processo do banco de dados de balística, que é a marcação das armas que saem das fábricas, ainda não foi implementado tal qual havia sido proposto. A arma, em sua grande maioria, nasce legalmente no país, portanto começar a controlar essas informações na fonte, que é muito mais fácil de fiscalizar, permite criar uma base de dados que sirva para a melhoria da investigação para as polícias. Ainda falta o processo de integração do banco de dados da PF e do Exército e o aprimoramento da fiscalização das empresas de segurança privada.”

A CPI das Armas na Alerj

“A CPI das Armas no Congresso concluiu uma série de medidas que não foram implementadas. Ela tem que fazer novas investigações mais detalhada que ampliem as já feitas, mas o caso do Rio de Janeiro incide em todo o país, por conta da política de segurança pública que está sendo implementada naquele Estado, que pode trazer frutos e inspirações para outros. Tentar destruir o mecanismo de desvio de armas que existe no RJ, dentro das próprias instituições policias, é fundamental. Mas temos que pressionar todos os processos de melhoria da segurança pública e esse é o papel da sociedade civil.”

Programa de desarmamento de 2011

“Nós temos pela primeira vez neste ano o Dia Nacional do Desarmamento, que acontecerá no primeiro sábado de julho. É absolutamente importante fazer uma mobilização nacional que traga de volta essa questão. Em 2003 conseguimos aprovar o Estatuto, em 2004 fizemos uma grande campanha que tirou muitas armas de circulação, em 2005 veio a discussão do referendo, em que a população votou pela manutenção da venda de armas de fogo, mas isso não significa que acabou com o Estatuto do Desarmamento, muito pelo contrário. Nós vamos fazer ao longo deste primeiro semestre uma grande mobilização para em julho conseguirmos tirar um grande número de armas de circulação.”