01 dezembro 2011

Eclipse em Belo Monte

Afora as questões ambientais, me lembro há uns 10 anos de um estudo da própria UNICAMP de que a usina operaria em média com 16% da capacidade. A pergunta a se fazer é se tamanho impacto ambiental compensaria um retorno tão pequeno. Gastar bilhões para construir uma usina no meio da floresta Amazônica para gerar energia para o Centro-Sul é no mínimo discutível.

Seguramente os alunos de engenharia da UNICAMP, classe que conheço razoavelmente bem, e, muito menos, aos esclarecidos astros globais não têm conhecimento disso. Talvez nem eu já que o debate invés de esclarecer à população, acaba disperso no voluntarismo ou patriotada repentinos, além, é claro, do oportunismo de alguns de nossos políticos e empreiteiras.
Achei esse texto do Yahoo muito interessante. Ele não trata de questões técnicas, mas reflete sobre a densidade dos argumentos de ambos os lados:


Dúvida e desinformação rondam o projeto de Belo Monte, da viabilidade econômica aos impactos socioambientais. Porém, algo é certo: a usina será construída, com ou sem topless de Maitê Proença. Mas o protesto dos atores da Globo não é vão.

Os astros globais conseguiram evidenciar um eclipse político com a crítica a Belo Monte: tucanalhas epetralhas, como uns e outros gostam de se chamar internet afora, logo se alinharam na reação ao tal movimento Gota D`Água. Apesar dos instantes de vergonha alheia e exagero, este é o maior mérito do vídeo. A união de governistas e oposicionistas em torno do projeto de Belo Monte diz muito sobre o estado das coisas num momento em que a pujança econômica ressuscita a ideologia nacional-desenvolvimentista dos anos 1950. O “agora vai” está de volta.

O vídeo dos globais também mostra o quanto essa ideia é difusa. Em resposta aos atores, alunos de engenharia da Unicamp gravaram uma paródia em defesa de Belo Monte. Se a marca dos artistas é o voluntarismo, a dos futuros engenheiros é a patriotada. A crítica a Belo Monte é ruim, mas a réplica não só compartilha a vergonha alheia como é pior: o Brasil pode pagar a conta (bem cara, de R$ 30 bilhões) com dinheiro do bolso, a floresta já vem sendo desmatada mesmo e por aí vão os estudantes. Se vale a dica, o colega Lúcio Flávio Pinto conhece como poucos o projeto de Belo Monte e já reuniu aqui no Yahoo! uma série de textos que ajudam a esclarecer questões nebulosas em torno da hidrelétrica.

Belo Monte, assim como a votação do Código “Agrícola” (florestal virou ironia), demonstra uma sintonia fina entre o poder político e o poder econômico, em um discurso desenvolvimentista que dá a liga no círculo de alianças e impõe uma visão de futuro que seduz segmentos das classes médias. A usina vai sair do papel e começar a barrar o rio Xingu, fato. Resta saber como será erguida, o que virá depois. Belo Monte pode ser só a cabecinha.

Há questões pontuais que carecem de resposta convincente do governo, como medidas de compensação para os indígenas afetados pela usina, que poderão ficar em maior situação de vulnerabilidade, principalmente com a chegada dos operários. Mas o momento cobra reflexão mais profunda, e sem voluntarismo, sobre novas possibilidades para um país que se pretende desenvolvido. Só se chega lá com uma sociedade mais igualitária, solidária e menos consumista. Quem topa?